Não é só futebol

brasil

Sim, eu vou ver a Copa. Eu adoro Copa!

Pratico esportes há 5 décadas e não consigo imaginar nada mais humano que o esporte. E dentre os esportes, nada é tão humano quanto o futebol.

Claro, hoje é um grande negócio, um grande “show-bizz”, mas assim mesmo emociona.

É um dos poucos palcos onde os artistas mais virtuosos talvez sejam os que menos estudo e cultura possuem.

Os “gigantes” muitas vezes são baixinhos, mirradinhos e magrelos.

O imponderável domina e predomina. Não há ciência capaz de antever ou superar um lampejo de Pelé, Maradona, Garrincha, Neymar ou Messi.

Assim como na vida, heróis e vilões improváveis alteram todo o roteiro que caminhava para o final esperado.

O silêncio mais ensurdecedor de que me lembro foi promovido por um italiano enrolado com máfia de apostas, que passara uma copa inteira sem nada fazer e resolveu mudar o rumo da história justo contra a maior seleção de todos os tempos. (nas modestas opiniões minha e do Guardiola). Ah, aquela fatídica tarde no Sarriá…

rossi

Depois disso, acho até que perdeu um pouco do encanto, o futebol burocratizou-se em nome do resultado e em detrimento da arte.

Pragmatismo é tudo na terra de Parreiras, onde não cantam sabiás. Assim ganhamos duas Copas: sem brilho. Mas dane-se, ganhamos!

Mas aí vem um 7×1. Pedagógico, merecido e, confesso: desejado.

Sim, eu torci contra naquela Copa. Passava por um momento pessoal conturbado e além disso tinha toda a conjuntura política, com estádios superfaturados e obras inacabadas. Todos sabem o resto da história.

O Alexandre Garcia, que é muito mais abalizado que eu, diz que se não fosse o 7×1 o Brasil seria tomado por um carnaval de esquecimento e talvez estivéssemos até hoje sob a égide do pior governo da história. Vielen Dank!

Mas ainda assim vibrei com os gols da seleção. Até tentei disfarçar, mas o amor pelo Brasil e o futebol falaram mais alto. Só não queria que ganhássemos aquela Copa.

Conta o Gabeira que durante a Copa de 70, sob o regime militar, os presos políticos decidiram que não iriam torcer pro Brasil, que era um absurdo comemorar vitórias da seleção enquanto tantos “companheiros” estavam padecendo nas “porões da ditadura”. Isso até a bola rolar, pois na hora do jogo todos se amontoavam ao redor de um rádio e gritavam feito loucos, se abraçando a cada gol de Pelé, Jairzinho e cia.

Nosso momento político atual é bem conturbado, com eleições de resultado absolutamente imprevisível pela frente. Um país totalmente polarizado e dividido ideologicamente, por obra e graça dos artífices gramscianos onipresentes nas redações dos veículos de comunicação e nos corpos docentes brasileiros.

Pouco importa.

Na hora do gol, mortadelas e coxinhas irão se abraçar. Alguém duvida?

* * *

Não tenho, hoje, a mesma paixão que tinha por nossa seleção. Um pouco pelo comportamento dos jogadores, ostentando carrões, bebidas e jóias, um tanto alienados à realidade semi-famélica do nosso povo. Um pouco pelas falcatruas tanto da Fifa quanto da CBF.

Mas eis que uma centelha se acendeu na minha cansada alma de torcedor do Brasil:

Uma menina de 7 anos, fã de tudo que tenha bola, rodas ou diversão.

Começou despretensiosamente pedindo o Álbum da Copa. Eu jurava que era só pra não destoar da turminha da escola, mas virou coisa séria! Em pouco tempo mobilizou a família inteira atrás dos valiosos cromos.

No último fim de semana fomos a São Paulo, para assistir a um musical, mas sugeri que fôssemos ao Museu do Futebol, onde há uma feira de troca de figurinhas. Pra quê!

Não tenho como traduzir em palavras a alegria da criatura e a emoção que todos sentimos pelos corredores e arquibancadas do museu.

Até nossa filha mais velha, que está com uma lesão complicada no joelho e não é lá essa fãzona toda de futebol, se esbaldou de emoção. Esqueceu completamente as dores que tanto a afligem, durante o passeio.

museu

Por isso, meus amigos, irei assistir a Copa. E irei torcer. E todos vamos nos cobrir com as cores da nossa linda bandeira. E vai ter rosto pintado, unhas roídas, palavrão e copo quebrado.

E, diferente da última Copa, estarei junto da minha família, cantando, xingando e gritando. Quer motivo melhor que esse?

Não, meus amigos e amigas.

Não é só futebol.

 

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Sobram Vagas, Falta Educação

20180315_111210-COLLAGEHá poucos dias tive de ir a uma grande rede de bricolagem. Sabe como é, mudança recente, broca para furadeira, parafusos, lâmpadas, tomadas de 3 pinos…

Quem tem o costume de ir a esses locais sabe da dificuldade em se encontrar uma vaga de estacionamento que não seja a quilômetros da entrada da loja. Pois num é que tinha! Não só uma, mas duas, uma defronte a outra. Mera ilusão. Pelas fotos aí de cima já deu pra perceber porque estavam vazias.

Muitos são os índices que medem o desenvolvimento de um país, mas não sou economista, tampouco estatístico. Pra mim, basta andar pelas ruas para ver o quão atrasada, ou desenvolvida é uma nação.

Mas se houvesse um ranking para medir o quanto um POVO é atrasado, essa prática aí das fotos o colocaria no TOP 5 dos mais atrasados.

Gente, a área de reposição dos carrinhos não distava 15 metros das vagas! Nem pressa, nem caganeira, nem bolsa amniótica estourando, NADA! Absolutamente NADA justifica uma pessoa abandonar um carrinho de compras na vaga ao lado em vez de retorná-lo 15 metros adiante.

E pode ter certeza: estes que abandonam os citados quadriciclos em locais impróprios são os mesmos que gritam Fora Temer e vivem reclamando da classe política, da corrupção etc.

Bom senso, respeito ao próximo e educação. De nada adianta distribuir renda, benesses, incentivos fiscais, privatizar e os cacetes a quatro, se não se investir em educação e se valorizar os princípios éticos e morais.

O carrinho do Brasil continua solto na vaga. Inerte, inútil e sem rumo. A 15 metros de um futuro que nunca chega.

Quadra Vazia

BebetoEm novembro de 2013, na volta à Brasília, depois do título da Copa do Brasil, conquistado pelo Flamengo, já no avião, deparei-me com a cena inusitada aí da foto. O grande Bebeto de Freitas, ídolo e mentor de várias gerações de esportistas, ele botafoguense doente (perdoem o pleonasmo), cercado de flamenguistas eufóricos e, lógico, sedentos por zoação.

Ocupava eu, daquela feita, assento a poucas fileiras de distância.

O cara, com a nobreza e altivez que lhe eram peculiares, conversou descontraidamente com todos, sem se abalar com as inúmeras tentativas de tirá-lo do sério.

Houve até quem lembrasse do famoso chororô, por ele protagonizado, além de tantas outras.

Só ficou sério em um momento, quando pediu a atenção de todos para humildemente dar seu testemunho acerca do grande ídolo Rubro-negro, Zico.

Contou ele que em 2003, quando assumiu a presidência de seu clube de coração, a crise financeira era tão devastadora que não havia dinheiro nem pra bancar um local de treinamento, já que o aluguel do estádio Caio Martins, no qual o Botafogo mandava seus jogos e treinava, estava vencido há vários meses e não havia como pagar.

A situação era desesperadora, pois o Botafogo iria disputar a série B daquele ano e o não retorno à 1a divisão significaria a falência completa do clube. Expôs a situação à imprensa, na esperança de conseguir apoio de quem estivesse disposto a ajudar. E o apoio veio de onde menos se esperava.

Contou ele que logo no dia seguinte recebeu um telefonema, ainda pela manhã. Era o Zico, o arquirrival que tantas tristezas infligira ao clube de General Severiano. O Galinho simplesmente estava colocando o centro de treinamento CFZ, de sua propriedade, à disposição, sem custos, ao Botafogo, caso o Bebeto não visse óbice.

Aceitou de pronto e o Botafogo pode lá treinar por um ano, alcançando o objetivo de retorno à Série A. Reconheceu, ainda, que se não fosse a generosidade do Zico, o Botafogo talvez não tivesse sobrevivido.

Eu que já era admirador do Bebeto por tudo que ele tinha feito pelo voleibol do Brasil, naquele dia fiquei ainda mais fã, por ele humildemente reconhecer a grandiosidade e generosidade de um ídolo do maior rival.

No avião, todos aplaudiram. O côro que se seguiu foi hilário: A A-HA, o Bebeto é Raça-Fla, OI!

Bebeto riu com a brincadeira e no final do vôo foi cumprimentado por todos que o ouviram.

Obrigado, mestre Bebeto, por tudo que fez pelo desporto do Brasil, esse país tão carente de líderes honestos, trabalhadores e visionários.

Uma grande quadra vazia à espera de alguém, que como você, possa preenchê-la com alegria, prosperidade e dignidade.

Descanse em paz, ídolo!

And The Oscar Goes To…Lixo!

oscarEm 1992, apostei com meu irmão que O Silêncio dos Inocentes iria ganhar todos os principais Oscars: filme, direção, ator e atriz. Ele riu lembrando que filme de terror não tinha chance na academia, que era por demais conservadora. Apostou no JFK, que era a barbada do ano. Pra quem não se lembra, o tal filme de terror fez barba, cabelo e bigode.

Bons tempos aqueles em que íamos dormir tarde da noite acompanhando, com certo suspense, a abertura dos envelopes. Havia, ainda, os musicais grandiosos; os apresentadores divertidos sem ser caricatos ou tendenciosos, ou ambos; as justas homenagens aos grandes diretores, roteiristas, atores e atrizes que nos faziam sonhar, eternamente crianças, nas salas escuras e mágicas onde se exibia o melhor da sétima arte.

Saudosista! Irão me acusar. Atrasado! Percebo dedos apontados para mim. Retrógrado! Vejo madeira sendo empilhada. Não tarda o insulto máximo de quem se recusa a aceitar o pensamento universal progressista obrigatório: Fascista!

Antes de prosseguir, uma ressalva: sou defensor, sim, da meritocracia. Nada supera o talento. Seja branco, gay, muçulmano, vascaíno, gordo, ou o que quer que seja, se tem talento e competência e chegou onde chegou com honestidade e caráter, irei sempre aplaudir e respeitar.

Proponho, agora, um exercício de imaginação.

Estamos na cerimônia do Oscar, num ano fictício. Apresentado pelo Danilo Gentili.

A estatueta de melhor ator vai para o Gary Oldman, o mesmo que ganhou esse ano. No discurso da vitória ele afirma ter orgulho de ser branco.

Melhor Diretor vai para o Ethan Cohen. No discurso da vitória ele pede para que os países muçulmanos derrubem a absurda proibição de entrada de judeus em seus países. Por um mundo sem barreiras!

Melhor atriz vai para Catherine Deneuve. No discurso da vitória ele reafirma ter orgulho de ser heterossexual e enaltece a família e o casamento.

Pronto! Acabou-se o mundo. CNN e Globo News teriam uma semana de programação especial, 24h por dia debatendo a inadmissibilidade da nova onda conservadora.

Fátima Bernardes iria para um SPA em Curaçao acometida por depressão profunda e stress emocional.

Calma, amigos, o exercício acabou. Peço excusas se causei sentimentos de revolta e indignação nos mais sensíveis. Foi só brincadeira, ok? #Paz

Retomando: o que se vê, atualmente, no Oscar, é exatamente isso aí, só mudei as etnias, religiões , sexos e orientações sexuais. O objetivo maior da festa, uma celebração à indústria do cinema, com todo seu encanto e magia, ficou em segundo plano.

Hoje, vemos apenas ativismo panfletário e ofensas abertas ou dissimuladas ao Trump. É aí que a academia incorre, a meu ver, num grave equívoco.

Tal qual o desfile de escolas de samba do Rio, no qual uma aberração completamente tendenciosa e seletiva, travestida de justiceiro social, de nome Paraíso do Tuiuti, foi vice-campeã,  nunca saberemos se os vencedores realmente o são por mérito e competência, ou por afinidade ideológica com os julgadores. Ou pior ainda: ou é da turma ou tá fu…

Não à toa a cerimônia do Oscar teve a menor audiência em seus 90 anos de história.

A isso chamo fascismo cultural. Um nefasto pântano de ideias onde é proibido pensar diferente e discordar do que seja considerado politicamente correto. Abram os olhos, amiguinhos, o conservadorismo é a nova contracultura.

A continuar assim, ano que vem volto a assistir ao Troféu Imprensa.

O Canto que Nos Impele

os-3-malandros

Considerando dados estatísticos recentemente divulgados, 80% dos que ainda teimam em ler minhas crônicas não passará deste parágrafo. Quer apostar? Sigamos, então.

Sim, eu sou flamenguista.

Agora que tenho a atenção de privilegiados 20% que se dispuseram a terminar o texto, me explico:

Segundo renomado instituto de pesquisa, algo em torno de 20 % dos brasileiros torce pelo Flamengo e se aplicarmos a estatística ao microuniverso que lê minhas tonterias, acredito que uns 8 guerreiros(as) chegarão ao final desta publicação.

Vivi, na noite da última quarta-feira, no estádio Mário Filho, o Maracanã, uma das noites mais emocionantes da minha vida. Pude vivenciar, intensamente, num intervalo de algumas horas, um verdadeiro carrossel de emoções: esperança; euforia; tristeza; medo.

Praticamente uma síntese do que é ser Flamengo.

Em termos futebolísticos, não há muito o que falar, visto que há cronistas e comentaristas muito mais gabaritados que eu, cujos arrazoados estão por toda parte e em todos os meios. Ademais, o esporte bretão goza de tanta popularidade justamente porque é, por natureza, improvável, imponderável e, por que não, injusto.

Senão vejamos: em qual outro esporte se pode ser campeão mundial sem vitórias?

Delírio meu? Então pensem numa Copa do mundo em que uma equipe se classifica com 3 empates na 1ª fase e ganha as demais na disputa por pênaltis, sagrando-se campeã.

Pois assim foi a partida de ontem e tantas outras que assistimos dia após dia. Uma equipe ataca e a outra se defende, esperando decidir o jogo em contra-ataques. Isso para um flamenguista é inadmissível, vedado por norma. Deve estar lá no nosso estatuto: nós ditamos o ritmo, a bola é nossa e só existe um campo, o do adversário. É quase uma força da natureza esse canto que nos impele. A nação canta e o time avança. É claro que dá muito certo, senão não teríamos a maior torcida do mundo. Mas também dá muito errado. Como ontem.

Poucas vezes participei de um espetáculo tão intenso, ruidoso e furioso. O setor norte parecia o ventre de um vulcão, rugindo e expelindo fogo, fumaça e bombas. Os portenhos sentiram a porrada e se defendiam heroicamente a cada ataque nosso. Mas não durou muito. O gol saiu e era questão de tempo, o título viria, todos sabiam, todos viam. Até que…

O resto da história vocês já sabem, imprudência nossa, gol dos caras, tudo que argentino precisa. E ainda com uma ajudazinha nada discreta de um árbitro pusilânime, que favorecia a milonga portenha, irritando jogadores e torcida. Empate amarrado, festa dos caras, tristeza nossa. Mas as emoções seguiram.

Na saída do estádio, na rampa de acesso ao metrô, a tranquilidade reinava, apesar do enorme contingente de pessoas. Até que algum gênio decidiu fechar os portões da estação, represando a cascata de gente e, pra piorar, sem motivo aparente, mandou jogar gás e bombas de efeito moral na turba encurralada. Pra conferir requintes de crueldade à malfadada operação, afunilou com pelotões de choque as duas vias de fuga laterais à rampa.

Eu e o Orlando, entre bombas, lágrimas e cassetetes conseguimos furar um desses bloqueios e pudemos, enfim, respirar longe da confusão. Mas o mais triste e revoltante foi ver pais desesperados, com crianças ao colo, lágrimas em profusão, gritando por socorro.

Depois dessa, nunca mais levo minhas filhas a qualquer estádio de futebol no Brasil. Bem diferente do que vi em Barcelona, em 2013, conforme escrevi em https://marcoantonio51.wordpress.com/2012/12/04/futebol-magia-e-subversao-na-noite-da-catalunha-2/

E assim voltamos pra casa, cansados, amedrontados, derrotados, mas vivos. Aquele Big Bob’s, de lei, na Tonelero, pra reerguer o moral. Corpo refeito, alma recuperada. Do terraço do Orlando a noite ia leve, ao pé do corte do Cantagalo. Os estrondos daquela noite, ao longe, ainda ecoavam. E ecoarão por um bom tempo ainda.

Paz ao Rio.

As Mulheres de Los Angeles

Um simpático senhor, de nome Harvey Weinstein, famoso produtor hollywoodiano, detentor de vários “Oscar”, foi acusado de abuso sexual por diversas mulheres, crianças, inclusive. Acusaram-no de praticar o velho teste do sofá, o qual, reza a lenda, é bastante utilizado em certa emissora de TV tupiniquim.
A prática consiste em garantir papéis em filmes, ou produções afins, a quem se digne a compartilhar da mesma cama que o célebre executivo da sétima arte.
Ocorre que o figura é notório financiador do partido democrata e de diversos movimentos progressistas de esquerda, nos EUA.
A comunidade artística de lá, mesmo ciente, há muito, dos abusos praticados pelo monstrinho, preferiu se calar, vez que machista, estuprador e predador sexual só existem do lado de lá, onde habitam os conservadores, a “ultra” direita, ou até mesmo os liberais. Se for de esquerda tá “de boas”. Trump sabe.
Agora vos convido a refletir: quantas mulheres, inclusive crianças, foram abusadas e violentadas sob o imoral silêncio da classe artística esquerdopata que tinha todo o conhecimento das práticas doentias do maníaco travestido de mecenas?
Não se iludam! São pessoas com este mesmo pensamento repugnante, a chamada elite intelectual artística nacional, capitaneada por Caetano Veloso, que aos 40 de idade teria desvirginado uma menina de 13 anos (palavras dela), que defendem as recentes exposições Queer Museum e a do MaM, nas quais crianças foram expostas a conteúdos completamente impróprios.
Quem se posiciona contra é imediatamente taxado de conservador, moralista ou fascista e sumariamente execrado (vide Da. Regina) em cadeia nacional.
Chega de hipocrisia! Chega de canalhice!
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Los Angeles.

A Arte de Queimar Caravelas (divagações para este fim de ano)


Estávamos eu e o Celestino, grande brother, em uma das muitas mesas de bar nas quais temos o salutar hábito de discorrer sobre temas de suma importância para o futuro do Brasil e do mundo, tais como o ataque do Flamengo, a saudosa bunda da Carla Perez ou o fulano de tal que virou viado.

O Celé, pós-doutorado em diversas disciplinas voltadas à conquista dos povos bárbaros de saia e cabelo comprido, naquela tarde ouvia atentamente aos queixumes do amigo, que ainda convalescia de um pé-na-bunda tomado recentemente, após um casamento de 20 anos.

Ouviu pacientemente, acompanhado de algumas doses de Old Parr e, após reflexionar por breves instantes, sentenciou:
“Meu velho, você precisa queimar caravelas.”
“Não entendi.”
“Você precisa queimar caravelas!”
“Desenvolva, cacete. Porreéssa de queimar caravelas?”

Contou-me então, que em sua passagem pela Adidância Policial na Embaixada em Lisboa, descobriu que a ilustre Escola de Sagres, fundada pelo Infante D. Henrique, onde seriam formados os navegadores portugueses, não era uma edificação, ou mesmo uma instituição de ensino,como erroneamente aprendemos nas aulas de história, no Brasil.

Infante D. Henrique

Infante D. Henrique

Seria, na verdade, um conjunto de técnicas e disciplinas que definiriam a maneira portuguesa de navegar, algo como, mal-comparando, a escola brasileira de futebol, na qual prevalecem a habilidade e o improviso, em contraponto à escola europeia, em que prevalecem a disciplina tática e o vigor físico.

Informou, ainda, que de acordo com os preceitos sagrenses, o retorno às terras lusas, após as grandes viagens desbravadoras, só seria admitido aos navegadores pertencentes à nobreza, cuja patente era obviamente maior. Aos de capitão pra baixo só restariam os destinos mais inóspitos, de posse de parcos recursos e uma ordem expressa: ao chegar, queimem as caravelas!

Resumindo: vá e vença! A derrota não era opção. A não-conquista não era opção. Sucumbir não era opção. Voltar não era opção.

O amigo me fez ver, naquela tarde em uma mesa de bar, que eu não seguiria em frente, a desbravar e vencer mares nunca dantes navegados, se não queimasse as caravelas que me aferravam à esperança de voltar.

E hoje, cerca de um ano após a reveladora conversa, já com as (acredito) caravelas queimadas, entendo que o mesmo princípio pode ser aplicado a variados aspectos de nossas vidas.

Uma virada profissional, colocar em prática aquele projeto sonhado há anos, abrir um negócio, estudar pra concurso, fabricar cerveja, ou suco de pequi com cranberry, ter um filho, entrar no happn, sair do happn, casar, separar, malhar com seriedade para alcançar o corpo desejado, fazer aquela viagem sabática, comer, rezar, amar… não importa! Qualquer mudança envolve riscos. E exige coragem, fé e determinação.

Quer realmente vencer, amigo? Queime caravelas.