A Arte de Queimar Caravelas (divagações para este fim de ano)


Estávamos eu e o Celestino, grande brother, em uma das muitas mesas de bar nas quais temos o salutar hábito de discorrer sobre temas de suma importância para o futuro do Brasil e do mundo, tais como o ataque do Flamengo, a saudosa bunda da Carla Perez ou o fulano de tal que virou viado.

O Celé, pós-doutorado em diversas disciplinas voltadas à conquista dos povos bárbaros de saia e cabelo comprido, naquela tarde ouvia atentamente aos queixumes do amigo, que ainda convalescia de um pé-na-bunda tomado recentemente, após um casamento de 20 anos.

Ouviu pacientemente, acompanhado de algumas doses de Old Parr e, após reflexionar por breves instantes, sentenciou:
“Meu velho, você precisa queimar caravelas.”
“Não entendi.”
“Você precisa queimar caravelas!”
“Desenvolva, cacete. Porreéssa de queimar caravelas?”

Contou-me então, que em sua passagem pela Adidância Policial na Embaixada em Lisboa, descobriu que a ilustre Escola de Sagres, fundada pelo Infante D. Henrique, onde seriam formados os navegadores portugueses, não era uma edificação, ou mesmo uma instituição de ensino,como erroneamente aprendemos nas aulas de história, no Brasil.

Infante D. Henrique

Infante D. Henrique

Seria, na verdade, um conjunto de técnicas e disciplinas que definiriam a maneira portuguesa de navegar, algo como, mal-comparando, a escola brasileira de futebol, na qual prevalecem a habilidade e o improviso, em contraponto à escola europeia, em que prevalecem a disciplina tática e o vigor físico.

Informou, ainda, que de acordo com os preceitos sagrenses, o retorno às terras lusas, após as grandes viagens desbravadoras, só seria admitido aos navegadores pertencentes à nobreza, cuja patente era obviamente maior. Aos de capitão pra baixo só restariam os destinos mais inóspitos, de posse de parcos recursos e uma ordem expressa: ao chegar, queimem as caravelas!

Resumindo: vá e vença! A derrota não era opção. A não-conquista não era opção. Sucumbir não era opção. Voltar não era opção.

O amigo me fez ver, naquela tarde em uma mesa de bar, que eu não seguiria em frente, a desbravar e vencer mares nunca dantes navegados, se não queimasse as caravelas que me aferravam à esperança de voltar.

E hoje, cerca de um ano após a reveladora conversa, já com as (acredito) caravelas queimadas, entendo que o mesmo princípio pode ser aplicado a variados aspectos de nossas vidas.

Uma virada profissional, colocar em prática aquele projeto sonhado há anos, abrir um negócio, estudar pra concurso, fabricar cerveja, ou suco de pequi com cranberry, ter um filho, entrar no happn, sair do happn, casar, separar, malhar com seriedade para alcançar o corpo desejado, fazer aquela viagem sabática, comer, rezar, amar… não importa! Qualquer mudança envolve riscos. E exige coragem, fé e determinação.

Quer realmente vencer, amigo? Queime caravelas.

Quero Ser Arnaldo Jabor

Em 1999, o cineasta americano Spike Jonze ganhou vários prêmios, além de ter recebido três indicações ao Oscar, pelo filme “Being John Malkovich”, no Brasil intitulado “Quero ser John Malkovich”.

Na película, um grupo de pessoas encontra um portal, que leva quem ultrapassá-lo até a mente do ator John Malkovich, onde pode permanecer por 15 minutos, até ser cuspido numa estrada na saída de Nova Jersey. O espertalhão que fez a descoberta resolve alugar a passagem para outras pessoas, dentre elas o próprio John Malkovich.

Nos dias atuais, tem muita gente no Brasil que gostaria de descobrir portal semelhante, só que com o intuito de entrar na mente (talvez no corpo) de escritores, jornalistas e celebridades globais em geral, tais como o Veríssimo, o Jô Soares e, principalmente, o Arnaldo Jabor.

Arnaldo Jabor

O carioca em tela, roteirista e diretor de cinema por ofício, ao que me lembro começou a comentar cultura (ou contra-cultura) nos idos dos anos 90, em aparições pontuais no Jornal da Globo. Suas intervenções, repletas de ironia, bom-humor e com uma boa pitada de sarcasmo, fugiam frequentemente do lugar-comum dos editoriais televisivos de então, salvo honrosas exceções, como Paulo Francis, Nelson Motta e outros(as).

Com o sucesso da coluna, passou, então, a comentar de tudo: de política a paisagismo, passando pela arte, beleza e arquitetura. Lembro de um episódio divertidíssimo, de quando foi convidado a comentar a cerimônia de premiação do Oscar, no ano em que o Titanic arrebatou todos os prêmios a que concorreu. Lá pelas tantas, já cansado de subir as majestosas escadas do nababesco auditório, o diretor do filme, um arfante James Cameron, citando a célebre fala da personagem Jack, interpretado pelo Di Caprio, mandou um sonoro “I’m the king of the world!” (eu sou o rei do mundo!).

Titanic

O Jabor não se conteve e reagiu indignado, com microfones abertos: “Porra, esse cara já tá ficando mascarado!” Riso geral no estúdio, até o Renato Machado explicar que aquilo era a fala do Di Caprio, no filme.

Mas é exatamente essa verborragia do Jabor, aliada à nem sempre bem interpretada sinceridade que lhe é característica, que lhe conferem identificação com boa parte do público que o assiste, e o fazem controverso e, por conseguinte, atrativo.

Um prato cheio, hoje em dia, aos que buscam desesperadamente seus 15 minutos de fama, ou seu milhar de “curtidas” no facebook.

Pipocam pelas redes sociais, as mais diversas, e até mesmo disseminados por (pasmem, eles ainda existem) e-mails com intermináveis powerpoints, supostos textos do Jabor, em que o autor desfila, despudoradamente, preconceitos de todo o tipo, discriminações as mais variadas, homofobia e ódio generalizado.

As vítimas dos ataques do suposto autor, ou autores, pois parecem ser muitos, vão desde o Governo, passando pela Presidente Dilma e, claro, o PT, além dos mensaleiros, sertanejos, pagodeiros, o Carnaval e até o bolo de cenoura. Com ou sem cobertura de chocolate.

O próprio Jabor já foi a público, diversas vezes, para alertar sobre a apropriação indevida de sua imagem e as muitas tentativas de atribuir-lhe citações, falas e textos falsos.

Eu me pergunto o que leva uma pessoa, possivelmente desocupada, pois escrever leva tempo (e escrever corretamente, mais ainda), a tentar se passar por outrem, no intuito de se fazer ouvida? Digo, lida?

forger

Antes de mais nada o sujeito deve ser muito covarde, pois se não o fosse, assinava sem problemas os textos de sua autoria, fossem eles receitas de pão de queijo, guias práticos de sobrevivência na França, ou o ódio mortal que nutre por minorias. Ou maiorias.

Com a nobre intenção de ajudar os frouxos em geral que querem escrever (e assinar) como o citado cineasta, tomei a liberdade de elaborar um pequeno guia de “como ser” Arnaldo Jabor:

1- Escreva sobre temas polêmicos, notadamente política, sexualidade e religião. Mas cuidado: abstenha-se de falar de temas muito mundanos, como por exemplo a atual escalação do Flamengo. Isso é muito desintelectualizado, não tem a griffe Jabor;

2- Faça uso constante de metáforas, metonímias e hipérboles. Se você correu pra googlear quaisquer destes termos, pare por aqui. O Jabor respeita à risca as regras gramaticais e usa com fidalguia as de estilo. Desnecessário citar as de ortografia. Portanto, se você não manda muito bem no português, só lalá, meu amigo, volta pro Orkut;

3- Abuse da ironia e do sarcasmo. Mas cuidado pra não soar caricato, nem espalhafatoso demais. Lembre-se que você quer ser o Jabor, não o Clodovil;

4- Seja muito criativo e lance mão, vez ou outra, de uma ousadia controlada, escrevendo coisas aparentemente sem sentido, ou desconexas, como por exemplo: “ Não mais utopias nem mesmo distopias, que são ‘finalismos’ ao avesso.” ( JABOR, Arnaldo em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-novo-carnaval-das-ruas-,996115,0.htm)
As “mina pira” pra tentar entender o que você quis dizer com isso;

5- Por fim, se você seguiu todos os passos acima e assinou seu texto como se o Jabor fosse, contrate um bom advogado, pois além de umas curtidas no face e mais algumas retuitadas, você pode ganhar um belo dum processo por falsidade ideológica.

Uma bela chance de ganhar seus 15 minutinhos de fama.

Futebol, Magia e Subversão na noite da Catalunha

flag_of_catalunya_indep Aqueles que me conhecem, ainda que pouco, sabem que não sou muito favorável a tratar, em público, dos três assuntos proibidos, no Brasil, se o intuito é se manter uma amizade: política, religião e futebol.

Mas o que presenciei na noite do último sábado, na capital da Catalunha, onde fui gastar umas folgas acumuladas, foi muito mais que um jogo propriamente dito. Foi uma celebração. Mas não se preocupem. Nesta crônica, o futebol é, de longe, o assunto menos importante.

Quando estive no Brasil, mês passado, fiquei perplexo ao ver, num dos vários aeroportos por que passei, um anúncio oficial, acho que da Embratur, ou do Comitê da Copa, refutando o já aclamado bordão “Imagina na Copa…” Duvida? Clica aí: http://www.imaginanacopa.com.br

Resumindo: o governo tá gastando com propaganda oficial pra “tranquilizar” a população acerca da mais que provável catástrofe anunciada. Posso estar errado, mas o dinheiro seria muito mais bem empregado no VLT de Brasília, por exemplo.

O Lula Guerreiro, grande brother, marido da Ju (favor não confundir com o ex­-presidente) recentemente postou no Facebook que gastou mais tempo pra chegar a Congonhas, de táxi, do que de avião a Brasília. E querem me dizer que na Copa a coisa vai andar?

Acorda Brasil! A Copa é amanhã e até agora só temos a certeza de que vai ter estádio. E só.

Sábado à noite, em Barcelona, cheguei (de metrô) ao estádio Camp Nou uma hora antes do jogo, marcado para às 20:00h. Isso porque imaginava encontrar algo parecido com os estádios do Brasil: metrô lotado, engarrafamentos, filas intermináveis para retirar o ingresso (comprado pela Internet), ou para entrar no estádio. Pelo sim, pelo não, resolvi não arriscar.

A verdade é que deu tempo pra retirar o ingresso, ‟bater” uma hamburguesa con queso, tomar uma Estrellita e entrar numa boa. Sem filas, sem atropelamentos, sem nada.

O mais bem vestido no Camp Nou

O mais bem vestido no Camp Nou

Ao entrar no estádio, um susto: ‟marcaram o jogo pro Vazião (ops), Engenhão e não me avisaram” -­ pensei. Faltavam 30 minutos pra começar a partida e a lotação era de uns 40%, chutando alto. A foto aí do lado não me deixa mentir. O frio era de chorar: 6º

Fui ao banheiro (limpo, com água, tampa nos vasos e papel), depois comprei mais uma Estrellita, tudo sem filas, e voltei. As equipes se aqueciam no gramado. Era possível ver Idosos e crianças, mesmo de colo, por todos os cantos. Só o que não vi foram as tais torcidas organizadas.

Que galera é essa!

Que galera é essa!

Precisamente às 19:55 as equipes se perfilaram. O estádio, cuja capacidade é de cem mil pessoas, estava lotado. (Vide foto). Todos cantavam, de pé, o hino do Barcelona. Oito da noite, britanicamente, soou o apito.

A partida, em si, era quase um amistoso, pois tanto o Barcelona, quanto o Athletic Bilbao, representam Comunidades Autônomas, respectivamente Catalunha e País Basco, que tentam, há séculos, separar-­se da Espanha. Seria bem plausível encontrar torcedores rivais empunhando conjuntamente um cartaz do tipo ‟chupa Espanha! ”.

O resultado do jogo, tão previsível quanto o caos a ser instalado no Brasil daqui a dois anos, foi o reflexo da abissal diferença técnica entre as equipes. Mas cabe um esclarecimento: a equipe basca só admite, em suas fileiras, por força de estatuto, jogadores bascos, ou descendentes. Desafio você, caro leitor, a me dizer o nome de um grande craque basco:

… (som de grilos)

Pois é, não deu outra: 5×1 Barça. Fora o baile. E o show particular do Messi.

Mas o que é realmente esse time do Barcelona? Os caras simplesmente subverteram a lógica do futebol. Subversivos sim. E mágicos!

A pelota, como em uma função circense, esconde-­se teimosa e misteriosamente das botinas alheias, para surgir, instantes depois, em poder de seus verdadeiros donos, os Catalães.

O grande mago atende por Iniesta, um carequinha genial que faz verdadeiros sortilégios no palco esmeraldino. Durante todo o tempo em que manipulou nossos sentidos, sob a luz dos holofotes, não errou sequer um passe. Mágicos sim. E revolucionários!

Toda a ordem preconcebida de 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, ou outra ditadura tática qualquer, cai, inapelável, sob a avassaladora nova ordem. Viva la Revolución!

Senão vejamos:

Imaginem um time que só tem um zagueiro de ofício. Um time que joga com dois laterais ­esquerdos. Sem cabeças de bagre, digo, área. Com quatro atacantes, mas nenhum centro­avante. Tem tudo pra dar errado, certo?

Errado. Esse time é o Barça.

covardia...

covardia…


E tem mais: todos os cinco tentos foram marcados dentro da área.

Desconfio que o melhor emprego do mundo seja, depois do meu, o do Vitor Valdez, goleiro do Barça. O cara deve ganhar rios de dinheiro pra assistir aquele timaço de dentro do campo. Não pegou na bola nem na hora do gol de honra.

Mas futebol à parte, o que me impressionou mesmo foram a organização e a logística impecáveis que permitem que cem mil espectadores possam chegar a uma praça esportiva, com menos de 30 minutos de antecedência, seja de carro ou de transporte público, e assistir confortavelmente (fora o frio) uma partida de futebol.

Se a Catalunha realmente vier a se tornar Estado independente, creio que grande parte da conquista se deve ao empenho de seus governantes, que aliado à determinação de seu povo, promoveu uma silenciosa revolução, dentro e fora dos gramados, que se traduz em eficiência e organização.

O pior vai ser assistir, em 2014, o Messi dar show no Maracanã…

A Avenida e o Brasil

Nota

ImageDepois de ler o artigo “Números alarmantes da crise atual” (http://leonardoboff.wordpress.com/2012/10/20/numeros-alarmantes-da-crise-atual/) da sumidade Leonardo Boff, fica difícil falar de assuntos mundanos como a crise do Flamengo, a cor do cabelo da Xuxa ou o final de Avenida Brasil. Mas esse post não é só sobre a novela, ou pelo menos não é sobre a parte lúdica (e também necessária) do aclamado folhetim televisivo.

Acreditem, é muito mais que isso.

O já falecido carnavalesco Joãosinho Trinta, durante um daqueles modorrentos debates televisivos vespertinos, perguntado por certo intelectual, se achava correto vestir favelados como reis e rainhas, para no dia seguinte deixá-los ser atropelados pela cruel realidade da vida, respondeu, sem titubear, que “pobre gosta é de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”.

Daí vem, na minha modesta opinião, o grande mérito do jovem e genial autor de Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro: prender a atenção de uma nação inteira, em sua maioria composta por cidadãos de baixa renda, por meses a fio, em torno de uma trama suburbana, cujos protagonistas viviam em, ou eram oriundos de um lixão.

Salvo engano, visto que só pude acompanhar o ultimo mês da trama por meio de vídeos na Internet, até o núcleo poligâmico chic zona sul foi acabar no Divino.

ImageNada, ou muito pouco das idílicas areias de Búzios e Leblon, onde costumam desfilar as beldades, megeras, mocinhos e vilões da novela das oito. Perdão, nove.

Mas outro aspecto da novela me chamou a atenção. A vingança.

Poucas vezes vi um final de novela ser tão criticado, talvez, justamente por ter mostrado a faceta mais cristã (ou budista, ou islâmica…) da personagem Nina, que acabou perdoando sua algoz. Mas ali, pra mim, o autor resumiu todo o brilhantismo que lhe é, agora posso dizer, peculiar.

Os conceitos de vingança e justiça, dificilmente se completam, pois é perfeitamente possível (e desejável) obter-se esta, sem necessariamente fazer uso daquela, ou, num cenário pior, fazer uso daquela, sem se obter esta última, o que costuma acabar nas páginas policiais e/ou nos bancos dos tribunais.

O assunto mais comentado, compartilhado e curtido na central de palpites e mesa de boteco virtual da atualidade, o Facebook, depois de Carminha e Cia, é o julgamento do mensalão.  Curiosamente, nesse quesito, os conceitos de vingança e justiça também se misturam. Image

Tanto os simpatizantes do PT, quanto os anti-petistas, (e até mesmo alguns advogados!), usam de imagens e citações da novela, para comentar o julgamento. E os exageros estão em ambos os lados.

Talvez num desejo incontrolável de vingança, os muitos anti-petistas postam imagens do Joaquim Barbosa trajado de Batman e desfilam memes (essa é nova, mas tem no google) dos réus pertencentes aos quadros do PT, como a maior quadrilha especializada da história do Brasil.

Já os adoradores de Lula questionam os métodos e a própria legitimidade do Tribunal, a quem chamam “de exceção”. Alegam que o partido rival, o PSDB, promoveu as mesmas práticas e jamais foi julgado.

Muita calma nessa hora, minha gente!

Graças à tal Constituição “Cidadã” de 1988, que obriga os chefes do Executivo a promover as alianças mais espúrias e esdrúxulas, para garantir o mínimo de governabilidade, os mensalões, ou compra de parlamentares em troca de apoio no Congresso, vem de longa data. E pior! Devem continuar ainda por um bom tempo.

Ou todo mundo já esqueceu da reeleição do FH, do mensalão do DEM  em Brasília, ou do  PSDB em Minas?

O argumento dos petistas  de que há perseguição política e condenação prévia por conta da influência da Mídia, a meu ver não cabe, até porque há um oceano de provas a mostrar o contrário.

O que se espera, é que a Justiça prevaleça, tanto no atual Julgamento, quanto nos que oxalá venham, para botar na cadeia quem quer que seja, independente de convicção política, passado nobre e bolso!

O Brasil precisa muito mais do perdão, do que da vingança da Nina.

Mas mais que tudo, o Brasil precisa de Justiça.Image

Corações, mentes e bolsos.

Ninguém pode dizer que conhece a verdadeira acepção da palavra “capitalismo” sem ter ido à Disneylândia. A cidade da fantasia é um mundo de encantamento, magia e entretenimento sem igual. Mas tudo tem o seu preço.
No excelente livro Fast Food Nation, do jornalista americano Eric Schlosser, sobre a influência local e global da indústria alimentícia norte-americana, há uma passagem interessantíssima sobre dois ícones da sociedade de consumo global: Walt Disney e Raymond Alexander Kroc.
O primeiro dispensa apresentações, mas o segundo, apesar de não tão conhecido, em nada deve ao primeiro em matéria de empreendedorismo, sucesso e fortuna. Trata-se, simplesmente, do criador da rede de sanduíches Mcdonald’s.
No livro, descobre-se que ambos nasceram no mesmo estado (Illinois), serviram juntos na mesma unidade de socorristas na I Grande Guerra e estudaram juntos. E, nas palavras do autor:
“Os dois homens dividiram a mesma visão da America, a mesma fé otimista na tecnologia e o mesma visão política conservadora.”
Vou além: eles descobriram e aperfeiçoaram (talvez até tenham arquitetado) um método brilhante de enriquecimento:  atingir o bolso dos adultos por meio dos indefesos corações e mentes das crianças.
Ou vai alguém me dizer que vai no Mac porque adora aqueles pedaços pasteurizados de carne, envolvidos em pães de sabor isopor, recobertos por gergelim? Duvido! O grande apelo da cadeia de sanduíches é o tal Maclanche Feliz, que as crianças por vezes nem sabem (felizmente) que gosto tem, entretidas que estão com os brinquedinhos que o acompanham.
O mesmo artifício é fartamente empregado no Reino da Magia. E nem precisa entrar no parque para começar a sentir os efeitos do ataque massivo à mente dos pequenos e ao bolso dos graúdos.
A blitzkreig começa já nos hotéis.
Cada um tem um tema especifico, que vai desde o mundo mágico do circo, do velho-oeste, dos Carros (o desenho) ou, no nosso caso, o Castelo dos Sonhos.
Já no hall de entrada um indefectível aroma de chiclete invade nossos pulmões, aguçando a já bastante apurada ânsia dos pequenos por balas e doces. Dezenas de máquinas iguais às das divertilândias dos shoppings, com aviõezinhos, carrinhos,  cavalinhos, videogames e claro, chocolates e doces, espalham-se pelo salão principal. Com um pequeno detalhe: tudo movido a moedinhas de 2 euros.
A decoração remete a um castelo de contos de fadas, incluindo tronos, armaduras medievais, cetros e coroas. Comumente se veem meninas vestidas de princesas. Ah! Varinhas de condão são um hit também.
Mas voltemos ao parque:
Já na entrada somos dominados por dois sentimentos:
1- estamos num lugar realmente encantado;
2- a conta vai ser salgada.
Só pra entrar e ter acesso as principais atracões, (não todas) paga-se 131 euritos por pessoa, para dois dias (obrigatoriamente  consecutivos). Crianças de até dois anos não pagam (ufa!) e ate doze pagam meia. Mas tudo bem, o sorriso delas vale qualquer sacrifício. Mas ate isso é difícil e vocês vão já saber o porquê…
Lá dentro vende-se de tudo e tudo se vende.
Desde balões com a cara do Mickey, arquinhos com orelhas do ratinho ou da sua namorada, a Minnie, passando por capas plásticas de chuva (a 9 euros!), tudo é um grande shopping center com ares de estúdio de cinema. A mesma mensagem: compre, compre, compre! O mesmo alvo…
As atrações são muitas e variadas, mas é difícil aproveitá-las.
Há enormes filas pra tudo. A espera pode chegar a mais de uma hora, pra se tirar uma simples foto com o Mickey, que vai custar a bagatela de 20 euros. Duas por 30.
As atrações mais radicais, como montanhas-russas e elevadores em queda, pode se preparar. Uma hora e meia, no mínimo.
Agora some a tudo isso o fato de se estar com crianças “ultra-pacientes”, ser o primeiro final de semana das férias escolares europeias e muita, muita chuva.
No primeiro dia ficamos dez horas no parque. Esperamos até as dez e meia da noite pra ver o espetáculo de fogos, que ao final foi cancelado, por causa da chuva.
Mas quer saber de uma coisa: Realizamos, eu minha esposa e a Bibi, nossa mais velha, um sonho de criança. Nossa Belinha, por ser muito pequena, talvez não lembre depois, mas se divertiu como nunca.
Voltamos, por algumas horas, a ser as verdadeiras crianças que realmente somos. Tiramos fotos e abraçamos, emocionados, o Mickey e a Minnie. Corremos na chuva, gritamos de medo, ou de alegria, comemos porcaria (nao era Mac), sonhamos e acordamos.
Foi bem cansativo. Mas valeu.

E digo mais: vou voltar!
Não na daqui, mas na Americana, na Florida. Porém, só daqui a uns dez anos, se o Mestre permitir, em dia da semana e bem longe das férias escolares.
Hakuna Matata!

Guia Prático de Sobrevivência na França – Parte 6 – O Lazer

Français : Grande serre au parc de la Tête d'O...

Français : Grande serre au parc de la Tête d’Or, Lyon, France (Photo credit: Wikipedia)

Meus queridos e minhas queridas, desculpem o longo lapso desde o último post, mas algumas “aprontadas” da vida, somadas à relativa escassez de tempo, disposição e condições ideais para praticar este prazeroso ofício, me impediram de dar continuidade ao nosso guia. Mas vamos ao que interessa:  parte 6 do Guia – O Lazer.

A aprazível e pluviosa cidade de Lyon possui, relativamente, boas opções de lazer, adequadas aos mais diferentes gostos e bolsos. O problema é que há muita gente e estas opções, apesar de boas, quase sempre estão abarrotadas.

Os parques são maravilhosos, todos muito bem cuidados e mantidos, mas ir a um deles num final de semana ou feriado de sol torna-se uma tarefa Ulyssiana. E nem precisa de tanto sol assim. Como eu tenho, nos dizeres da minha esposa, formiga na cueca e não consigo ficar parado por muito tempo, inúmeras vezes enfrentei algumas intempéries, tais como tempestades, nevascas e temperaturas abissais, para dar uma corridinha no parque. O curioso é que tinha gente à beça.

Já vi coisas absurdas aos olhos tupiniquins por lá: casais namorando sob intensa chuva, pais e filhos pedalando ou jogando rugby na neve, um sem-número de atividades realizadas ao ar-livre, pelo simples propósito de sair de casa. A coisa mais estranha que vi, sem dúvida, foi uma cabaninha sobre rodas que os adultos utilizam para levar os filhos enquanto praticam sua corridinha ou pedalada. Não to brincando não, é uma espécie de tenda em nylon no qual os pais metem o filho (ou os filhos), atrelam à bicicleta, ou empurram e seguem o treinamento!

Agora vocês devem estar se perguntando: como é possível proteger do frio congelante, cuja duração pode variar de 4 a 6 meses ao ano, as pobres criancinhas que por aqui habitam? Pois é, minha gente. O sistema é bruto! Vou falar disso mais detalhadamente num post futuro, mas criança por aqui, tem que se virar desde cedo. Empacota o menino do jeito que dá e vamusimbora! No pain, no gain!

Os feriados e festas nacionais ou locais, são uma coisa de louco: milhões de pessoas aglomeram-se nas praças e parques em busca de um pouco de lazer e diversão. Em Lyon, a mais famosa e badalada é a Fête des Lumières, ou festa das luzes, originalmente criada em agradecimento à Nossa Senhora, no dia 8 de dezembro,  mas que com o passar do tempo foi se transformando em uma espécie de Carnaval fora de época, só que sem trio elétrico ou escola de samba, mas com algumas alegorias e muita bebida.

Na real: um programaço de índio! Um frio de doer, uma multidão se acotovelando nas apertadas ruas do centro histórico, um empurra-empurra desgraçado, tudo pra ver algumas instalaçõezinhas mequetrefes, e outras até bonitinhas, que duram uns 5 minutos e você fica se perguntando ao final: é só isso? A micareta de Lagarto, em Sergipe, deve dar de 10…

Mas o lazer predileto dos franceses, e acho que de boa parte da humanidade, ainda é a boa e nobre arte de comer e beber. Mas se prepare:

– Dica nº 17: Se for comer em restaurante, na França, reserve ao menos duas horas do seu precioso tempinho.

A cultura norte-americana, tão depreciada por aqui, encontra sua antítese mais escancarada na hora das refeições. A comida é sagrada por aqui. Não o tempo. Fast-food? Jamais, mon amies!

Eu até acho bem salutar poder desfrutar uma agradável refeição e uma boa bebida, seja em família, seja entre amigos, com calma e sem pressa. Mas vai dizer isso pra uma criança de 1 ano de idade! Esse é o problema, negada: criança nenhuma aguenta ficar parada duas horas assistindo uns adultos a comer e discutir o sentido da vida, as ligações do Cachoeira ou as fotos da Carolina Dieckman.

Mas não é só questão de cultura. Lembra aquela história da crise? Pois é, poucos estabelecimentos têm condições de contratar um número de funcionários compatível com o número de clientes, porque sai muito caro. Estima-se que o empregador pague o mesmo valor do salário, em impostos, ao governo, por cada contratado. Azar do cliente. Ou da filha bebezinha dele.

O pobre de um garçom, na França, deve se perguntar todo dia se realmente vale a pena ir ao trabalho. Rapaz, é muito sofrimento. Um garçom pra 15, 20 mesas e, às vezes, pro restaurante inteiro, com algum auxílio do proprietário. Uma correria louca, uma pressa sem-fim e que, no final, vai deixar todos estressados: o garçom, o cliente e a filha bebezinha dele.

– Dica nº 18: Se for almoçar em restaurante, na França, faça-o antes das duas da tarde, se possível um pouco antes. Depois disso, só no Mac Mac, no Quick (versão halal do Mac Mac, depois explico) ou contente-se com um sanduba de boulangerie. E não adianta chorar, mostrar a filha bebezinha com cara de fome, ou se jogar aos pés do maitre, em pranto convulso. Quinze pras duas é a hora fatal.

O melhor é planejar direitinho e fazer reserva antes. Taí, lembrei:

– Dica nº 19: Se for comer em restaurante, na França, faça a reserva com antecedência. Muitos estabelecimentos, principalmente os mais badalados, como os do Paul Bocuse, só aceitam clientes com reserva. Se quiser tentar a lista de espera das desistências, boa sorte e paciência. Não custa tentar.

Paul Bocuse, French chef

Paul Bocuse, French chef (Photo credit: Wikipedia)

E o preço? Até que pros padrões brasilienses, aos quais estava habituado, não é tão absurdo. O menu completo, com entrada, prato principal e sobremesa, sai por uns 17 euros, em média. Na cotação do dia, uns 40 reais. Agora, se o cidadão estiver a fim de impressionar a patroa, pode arriscar o lAuberge, o principal do Bocuse, mas aí prepare o bolso: o menu mais barato vai sair a 120 euritos por pessoa. Sem o vinho. Mas o garçom é exclusivo da mesa.

Melhor não levar a filha bebezinha.

À bientôt,

Bisus, bisus,

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Guia Prático de Sobrevivência na França – Parte 5 – o Carro

  Pois bem, meus caríssimos, como eu ia dizendo no post anterior, por conta da nossa neném e da dificuldade em deambular cidade adentro com poussetes e pesadas sacolas ecológicas lotadas de compras, resolvemos comprar um carro. Outra aventura começava …

Já de cara, quedei-me perplexo com a verdadeira “excelência” dos vendedores franceses. Como já disse anteriormente, a crise financeira fez com que as empresas deixassem de pagar comissão sobre vendas aos funcionários. O resultado foi um desastre.

Quem já comprou carro no Brasil sabe que o cliente é disputado à unha nas concessionárias. Já na porta, OS clientes são recebidos por belas moçoilas em trajes provocantes e, AS clientes, por rapazes de boa-pinta, em apertadas camisetinhas de meia-pata.

-Bom dia, aceita um nespresso ou uma água mineral?

Ah! Que saudade…

O sistema aqui é bruto, negada!

Você entra na loja e acha que é feriado, greve ou morreu alguém. Ninguém vem te receber. Os (poucos) vendedores estão encastelados em suas mesas, fuçando a Internet, ou o celular e não te dão a mínima.

-Dica n° 15: Coloque um belo de um “passeio completo” pra comprar o que for, na França, seja um carro, um eletrodoméstico, ou mesmo roupas. Tive o desprazer de entrar numa loja trajando bermudas e o vendedor me oferecer umas moedas pra que eu fosse embora, além de um sonoro “Allez y!” ou, em bom português: “vaza!”

De outra feita, estava saindo do trabalho de terno e gravata e parei para comprar uma besteira qualquer (acho que fraldas) e até me ofereceram um copo d’água.

Chegou ao cúmulo de, numa loja da Citröen, eu me dirigir ao vendedor e falar que queria dar uma olhada nos carros e ele me responder: – Fique à vontade, tem um monte aí…

Lógico que nunca mais pisei na tal loja.

Após outras tantas desfeitas e maltratos, finalmente compramos um carrinho.

Padecemos um bocado com a burocracia francesa, principalmente para registrar o veículo, pois só o fazem às terças-feiras e, se você esquecer uma vírgula em um dos muitos formulários, babau! Só daqui a uma semana.  Mas ao final, quase um mês após a compra, deu tudo certo.

Ah! Lembrei: pra comprar carro no exterior, é preciso ter visto temporário (de trabalho, negócios ou estudo), ou permanente.

Tudo lindo e maravilhoso, aquele cheirinho de carro novo e, já no segundo dia, resolvemos fazer umas compras de verdade, num hipermercado da região, com toda a família. Bagageiro lotado de comida, todos cansados e com fome, percebi que o tanque estava vazio. Eita, chegara a hora.

Na França, meus amigos, há muitos anos não existe a figura do frentista. O abastecimento é feito pelo próprio condutor. Seria nossa primeira vez. E, pra não fugir à regra, foi inesquecível.

Uma fila danada, um frio de lascar e, ao chegar a minha vez, deparei-me com três bombas: duas verdes e uma amarela. Lembrei do Brasil, onde amarelo é a cor das bombas de gasolina, ainda mais que na daqui estava escrito gazole, ao contrário das verdes, cuja identificação era nenhuma. Como nosso carro é à diesel, optei pela bomba verde.

A Jandira ainda me avisou: – Não é melhor perguntar pra alguém?

A proverbial praga de mulher, vocês sabem…

Olhei pros lados e não percebi nenhum olhar amistoso. Pelo contrário, já havia até alguns impacientes com minha flagrante indecisão.

– Que nada, basta cheirar. Cheiro de Diesel eu conheço de longe.

Só que o frio e o nervosismo devem ter afetado meus receptores olfativos, ou trocaram o cheiro de Diesel e não me avisaram.

Era gasolina! E após alguns metros e terríveis trepidações, muito semelhantes a convulsões, lógico, o carro apagou.

A mulher, claro, não perdeu a deixa: – Tá vendo? Eu te disse…

Pânico geral! Menino chorando, nego buzinando atrás, liga pra táxi, chama seguro, chama guincho – tudo com meu “brilhante” francês! Despachei as mulheres num táxi e esperei o socorro. Após algumas horas e um princípio de hipotermina, estava são e salvo em casa.

O carro, face à eficiência francesa, ainda demorou uma semana pra ficar pronto. Coisa que leva dois dias, no máximo, no Brasil. Mas o importante é que não houve qualquer dano e o bichinho anda que é uma beleza!

Quando consegue.

Como Lyon é uma cidade antiga, as ruas não foram feitas originalmente para carros e grande parte delas tem a tal faixa exclusiva para ônibus, ou até mesmo trilhos de tram, reduzindo ainda mais o exíguo espaço reservado aos pés-de-borracha.

Como há muitos cruzamentos, há muitos semáforos, (ou sinais para os cariocas, faróis para os paulistas). É um rame-rame sem fim, “anda um pouquinho, descansa um pouquinho, 280 metrinhos”.

Estacionamento, então, é uma loucura! O contribuinte se sente num eterno Shopping Center em véspera de Natal! Daí que os carrinhos “mini” são um hit por aqui. Vaga é coisa rara, cara e disputada na França.

Mas não para por aí não! Poucos são os prédios residenciais com garagens para todas as unidades. Resultado: meios-fios lotados o dia inteiro e edifícios-garagem repletos. Eu mesmo preciso alugar uma vaga, a peso de ouro, a uma quadra e meia de distância da minha casa e ainda tenho que me espiralar por SETE andares para chegar à tal vaga. Em mão única! Se vier carro descendo, tem que dar ré e esperar passar.

Que beleza! Quem tem tendência pra marear, vomita mesmo!

Pra terminar, a Angélica, aqui, não iria de Táxi coisa nenhuma, apesar da música ser francesa.

– Dica n° 16: tenha o telefone do teletaxi à mão, pois na rua ninguém acha. Isso mesmo, não há pontos de táxi em Lyon, só no aeroporto e estações de trem. Esqueça supermercados e shoppings.

Se vivesse em Lyon, a Angélica ia de ônibus mesmo!

À bientôt,

Bisus, bisus,