Bibi

Bibi
Minha pequena
Marina morena,
Pipoca, biboca, nariz de taboca.
Marina Bibi.

Queria te dar o céu,
O mar, que já é seu.
Te dar tudo que é meu,
Tudo que nunca tive, tudo que nunca vi.

A lua, as estrelas e um avião.
Voar contigo para o Marrocos,
Berlim, Florença ou Cazaquistão.

Dançar na chuva,
Comer brigadeiro, até de manhã.
Abraçar um estranho, subir a favela,
Ver o sol se pôr, em Itapuã.

Te quero feliz,
Vivendo, vibrando e cantando.
Tua voz que nos acalma e encanta.
E nos faz tão bem.

Como teu sorriso e teu olhar.

Carta para uma filha, nos seus 15 anos

“Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida”

Cartola

Reza a lenda, que Agenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, um dos grandes compositores da música popular brasileira, compôs “O mundo é um moinho” como um alerta para sua enteada, filha de Da. Zica.

Ainda segundo a lenda, a tal enteada teria anunciado que estava saindo de casa, no frescor de seus parcos 18 anos, para viver amasiada de um homem mais velho e de reputação duvidosa.

Não sei ao certo o fim da história, mas tenho certeza que se os apelos do mestre sambista foram de fato atendidos, a enteada saiu-se muito melhor do que se tivesse optado pela tresloucada aventura.

Nunca concordei com o dito popular no qual “se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”. Coisa mais idiota! Antes, fico com o ensinamento de outro mestre, Chico Anysio, que sentenciou nunca ter conhecido alguém que escutou conselho de pai e mãe e se deu mal na vida.

Marina, minha filha, hoje você completa 15 anos. Por conta de compromissos profissionais, passei boa parte desse tempo longe de você, como longe estou agora, no cumprimento de mais uma missão a mim delegada.

Coube a Jandira, sua mãe, a mais dedicada das mães, a difícil tarefa de suprir a saudade e a distância, zelando ainda por sua permanente orientação e educação.
Nesta difícil tarefa, tive ainda a sorte de contar com o luxuoso auxílio do Mestre Evilásio, Da. Celina, Tia Bá e Marco Túlio. Além, é claro, do amor de Vô Aluísio e Vovó Rita e suas orações protetoras. Sou-lhes muito grato.

Mas sempre que estive perto, procurei compensar as ausências com muito amor, muita conversa e muito tempo ao seu lado. São momentos de aprendizado mútuo, nos quais me inteiro do seu intrigante e maravilhoso universo multi-tarefa, ao tempo em que procuro repassar alguns conhecimentos apreendidos nos duros bancos da vida-escola.

“Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó”

Venturosamente, hoje não preciso, como o mestre Cartola, fazer nenhum apelo. Só lhe peço, Bibi, que guarde estes conselhos que ora te apresento. Parafraseando outro sambista emérito, Almir Guineto:

“O meu conselho é pra te ver feliz”

1- Nunca assuma a culpa ou os méritos de algo que você não fez;

2- Sempre trate todos da mesma maneira, independente de posição, hierarquia ou importância. Assim, o mais simples se sentirá prestigiado e o mais poderoso não se sentirá bajulado;

3- A máxima do Tio Ben: “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, prepare-se pra ser cobrada ou interpelada em momentos difíceis. Eles virão, acredite;

4- O sucesso incomoda. Lembre-se que é mais fácil mirar quem está no topo. Se quiser chegar lá, prepare-se para a inveja e a falsidade que virão a reboque;

5- “Se quiser ganhar inimizades, não precisa declarar guerra a ninguém, basta dizer o que pensa”. Essa é de Einstein;

6- Use sempre as palavras mágicas: bom dia (tarde, noite), por favor, com licença e obrigado. Se possível acompanhadas de um sorriso;

7- Falando em sorriso, sorria sempre. Você tem um sorriso poderoso!

8- Seja sonhadora, mas ao acordar, trabalhe muito para tornar seus sonhos realidade;

9- Na parte financeira, viva com o que você ganha. Não faça dívidas para coisas supérfluas como roupas, sapatos, eletrônicos etc. Faça economia para poder comprá-los e mantenha uma reserva para emergências;

10- Cante. Muitos acreditam que as pessoas cantam quando estão felizes. Ledo engano. As pessoas são felizes, porque cantam. E sua voz é linda!

11- Sempre que puder, escute os mais velhos. Há sempre uma lição a ser aprendida com eles.

12- A vida é feita de escolhas. Deus sempre nos dá ao menos duas opções. Você terá sempre que abrir mão de alguma coisa. Tá no contrato;

13- Conte sempre conosco. O bem mais valioso que você tem é a sua família. Nós somos o seu porto seguro.

P.S. Depois me cobra a história da gazela e do leão. Te amo Bibi!

Eu e Bibi

De Cabul à Vila Cruzeiro

A caminhada do metrô até o trabalho já foi mais curta. Agora tenho que caminhar quase 20 minutos pra chegar ao destino, contra os menos de 5 que eu levava, até o mês passado. Mas a tecnologia ajuda.

Munido de meu smartphone e um par de fones de ouvido, aproveito para me atualizar das notícias do Brasil e do mundo. Melhor ainda que a internet móvel me permite ouvir rádios de alhures. São as rádios da internet. E são milhares.

E foi na manhã chuvosa da quinta-feira, dia 25/11, que uma webradio norte americana noticiou algo que passou batido no Brasil. E talvez em grande parte do mundo.

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Image by U.S. Army Garrison – Miami via Flickr

A partir daquele dia, segundo o prestigiado noticiário, a ocupação americana no Afeganistão ultrapassava, em duração, a ocupação soviética na década de 80. Dez anos  e tarará.

E pior, talvez com os mesmos resultados: atoleiro completo.

Difícil não lembrar do Vietnã. Difícil imaginar o maior poderio bélico da Terra, com toda a tecnologia de vanguarda, guerras cirúrgicas, equipamentos futurísticos e seus super-homens, confrontado e afrontado por um bando de orelhas-secas trajando túnicas e turbantes, munidos de arcaicos AK-47 e surrados alcorões.

Meu velho companheiro e mestre dos tempos de COT, o Reinaldo, do alto de seu imenso conhecimento militar, forjado em uma década como sargento de Operações Especiais no Exército Brasileiro,  iluminava lá nos idos de 2001, quando os americanos invadiram o Iraque e cantaram vitória após a apocalíptica demonstração de força,  supondo tomar Bagdá em uma semana, com a tática chamada de ” choque e horror”, que consistiu em pesados bombardeios sobre a capital iraquiana, com farta quantidade de mísseis teleguiados e parafernálias afins.

Dizia ele: “Marcon, quem ganha guerra é a infantaria.”

De nada adianta bombardeio, localização por satélite, foguetes, mísseis, ou o que quer que seja, se depois alguém não entrar lá. A pé.

Kids on tank, Kabul
Image by swiss.frog via Flickr

O homem vai ter que tomar o território pelo chão, em locais que veículo blindado nenhum entra, e se entrar, não tem a mobilidade necessária para uma eventual evasão. Perfeito para ser emboscado.

O equipamento nesse tipo de terreno hostil, de pouco adianta. O que fala mais alto é a coragem e a tática correta. Além do preparo físico e mental do combatente.

E ao que me consta, nem em Cabul, nem em Bagdá, os Yankees se safaram.

Vila Cruzeiro, Penha.  No mesmo dia, talvez no mesmo horário, outra guerra, a milhares de quilômetros dali, iniciava-se.

Rio de “Xaneiro”, cidade maravilhosa.

O purgatório da beleza e do caos, segundo os versos da Fernanda Abreu, enfim amarrou seu punho no de seu desafeto e iniciou  o tão aguardado duelo de facas, pelo bem e pelo mal.

Mais curioso ainda,  é que desta vez não ressoaram as indignadas vozes histéricas dos direitos humanos (dos bandidos), como de hábito.

Acho até que os Rubens Césares e os Jabores da vida esboçaram algum esperneio, alguma declaração indignada contra a limpeza étnica promovida pelo Estado policialesco que só mata preto e pobre.

Os “legalaizeteiros” de plantão, como o rapper sem nome, mas com letra e número, certamente já se mobilizam nos bastidores, secos que devem estar por um bom baseado, ou uma bela carreira. A fonte tá secando, parceiro. E síndrome da abstinência é f…

“Tu quer a paz, eu quero também,
Mas o estado não tem direito de matar ninguém
Aqui não tem pena morte mas segue o pensamento
O desejo de matar de um Capitão Nascimento
Que, sem treinamento, se mostra incompetente…”

Muito bonitinho no samba-rap. Mas no tribunal do crime, aquele promovido pelos donos-de-boca, “tem que cantar fininho rapá!” E sem choro, nem vela. Pneu, gasolina e microodas. “Tem que ser sujeito-homem, mané!”

Credito grande parte do apoio popular à tomada da Vila Cruzeiro, ao soberbo trabalho cinematográfico da rapaziada

Tropa de Elite (2007)

Image by Lord_Henry via Flickr

de Tropa de Elite. Os dois.

Destarte a indignação de alguns usuários famosos, outros nem tanto, além, é claro, da turma dos direitos humanos (dos bandidos), a estória do Capitão, digo, Tenente-Coronel Nascimento, veio mostrar ao grande público uma verdade inconveniente. Mas necessária.

O bem deve vencer.

Ninguém tem o direito de prescindir de uma vida honesta e de um trabalho digno, por conta do dinheiro fácil da vida no crime.

Crime não é meio de vida. Por que tantos milhões acordam cedo, andam em ônibus e trens sujos e super-lotados, para ganhar honestamente a vida, por mais miserável que seja, sem ter de recorrer ao crime?

A mania de ter de levar vantagem em tudo leva ao crime. Não existe almoço grátis. Nem dinheiro fácil.

A malandragem carioca, talvez oriunda da excêntrica miscigenação das raízes de seu povo, e que adquiriu certo romantismo na música popular e no imaginário brasileiro, foi, e é levada ao extremo, na abominável vida do crime das favelas cariocas.

Favela não, perdão. Agora é comunidade. Mas, como diz o Romário (outro arquétipo da malandragem carioca): “prefiro favela, até porque é mais bonito”

O homem honesto, correto e trabalhador, na visão dessa excrescência em forma humana, é  chamado de “otário”.

E quem são os otários que vão levantar a voz contra essa aberração, essa inversão ignominiosa de valores? Quem tem a coragem de enfrentar esses desajustados, travestidos de poderosos donos de boca?

Os homens de preto. O BOPE.

Batalhão de Operações Policiais Especiais

Image via Wikipedia

Esses loucos de preto, que teimam em desafiar a lógica e a matemática, ao aventurar-se por vielas escuras, íngremes e mal-cheirosas, combatendo inimigos em número e poderio bélico muito maiores, o fazem não por querer promover limpeza étnica contra pretos e pobres.

O fazem por que é a coisa certa. E pouca gente sabia disso.

Esses abnegados, nada ganham a mais para por a vida em jogo, dia após dia, confrontando o mal. Nenhuma gratificaçãozinha meia-boca.

Para eles, o bem é um ideal.

A maior vitória: voltar pra casa.

O maior medo: fracassarem em sua missão.

E esse é o grande mérito de Tropa de Elite: finalmente mostrar ao público quem verdadeiramente está do lado do bem.

Mas não se enganem, caros amigos. Está apenas começando.

A bem planejada e até agora bem executada retomada de território, que além dos homens de preto, conta com milhares de policiais e militares das forças armadas, ao que parece imbuídos dos mesmos ideais, em algum momento vai recrudescer.

Anotem aí: Vila Cruzeiro foi tão-somente a tomada de Bagdá em uma semana.

Os 10 anos em Cabul ainda estão por vir…

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Crônica da cidade distante

no centro de um planalto vazio


O almoço de domingo encaminhava-se para a mais completa obediência ao roteiro: um bom italiano, família reunida, as novidades da novela para as mulheres, as decisões do futebol para os homens.

Após os pedidos devidamente registrados e antes da chegada das bebidas, à mesa ao lado sentou-se distinto e solitário senhor. Ao reconhecermo-nos, eu e ele, por conta das camisas, torcedores rubro-negros, uma breve saudação. Mas não ficou por aí.

O simpático ancião levantou-se e veio saudar a todos em nossa mesa. Apresentou-se cordialmente e foi logo disparando:

-Sou carioca, tenho 85 anos, flamenguista, cheguei em Brasília em 1960, vindo do Rio, trazido pelo meu chefe, que me prometeu apartamento e uma dobradinha.

Perguntei curioso: dobradinha?

– Era o apelido que se dava à gratificação para mudar-se do Rio para Brasília, que correspondia ao dobro do salário.

Lembrei-me então do samba de Billy Blanco:

“Não vou, não vou pra Brasília

Nem eu nem minha família

Mesmo que seja

Pra ficar cheio da grana

A vida não se compara

Mesmo difícil, tão cara

Eu caio duro

Mas fico em Copacabana”

E arrematou: – Tem muito carioca que eu conheço, que vive falando mal de Brasília, que é longe de tudo e não sei mais o quê, mas morava lá nos cafundós do subúrbio no Rio e veio morar no Plano Piloto, mas vive dizendo que bom mesmo é o Rio! Gente ingrata.

E continuou enaltecendo Brasília e os corajosos barnabés que pra cá vieram. Atraídos, claro, pela dobradinha.

A mente voou longe.

Lembrei então do menino assustado e ansioso, que a bordo de um Boeing da Cruzeiro, admirava-se boquiaberto com a paisagem que se revelava a seus incrédulos olhinhos.

A viagem de Rio Branco, capital do Acre, até Brasília, em 1977, consistia em verdadeiro Rally aéreo. A começar pela precariedade e desconforto das aeronaves de então, passando pela escala interminável em Cuiabá e culminando com os temidos sacolejões que acometem a todos quantos tentam desbravar os céus do planalto central, no período vespertino. Os saquinhos de vômito, à época, de papel, há muito se tinham acabado. O jeito era correr para o banheiro. E rezar pra estar desocupado.

Mas nada disso afligia o menino. Tudo o que mais queria era chegar à cidade do futuro. A cidade de seus sonhos, repleta de modernidade e carros que voavam. Imaginava-se chegando a Orbit City, a futurística cidade dos Jetsons.

Na acanhada casinha de fundos da Cohab do Bosque, em Rio Branco, quando por diversão tinha apenas uma velha vitrola, os discos dos Beatles e do Roberto e alguns livros didáticos esquecidos pelo inquilino anterior, entre eles um de Geografia do Brasil, em cujas surradas páginas descobrira algumas fotos da nova capital, o menino viajava em sonhos até sua terra prometida.

Lá, tinha certeza, seria feliz. Lá teria seus pais novamente juntos. Lá, na cidade distante de seus sonhos, um dia venceria.

Maravilhado mesmo ficou ao perceber o desenho nítido de um avião primorosamente rabiscado no meio do cerrado. O lusco-fusco ajudava a conferir uma aura de mistério e encantamento à improvável paisagem.

Brasilia at night.
Image via Wikipedia

As luzes amareladas, nunca antes vistas pelas infantes retinas, recém-acesas, àquela hora, adornavam delicadamente o cenário.

” Ele ficou bestificado com a cidade,

saiu da Rodoviária viu as luzes de Natal.

-Deus mas que cidade linda…”

Já em terra, dentro do táxi, achou curiosas aquelas elevações que  atravessavam as ruas de lado a lado, obrigando o motorista a reduzir a velocidade.

– Moço, por que que o encanamento aqui passa por cima da rua?

O motorista riu e respondeu: – Isso não é cano não, é quebra-molas!

Coisa mais sem propósito, pensou o menino. Quem é que vai construir um negócio pra destruir o carro dos outros? Até hoje se pergunta…

Pra arrematar, o motorista ainda alertou: – Aqui, o corpo humano se divide em cabeça, tronco e rodas. Sem carro não se faz nada.

Ledo engano, caro amigo. Ledo engano. Hoje, com carro é que não se faz nada…

Pois essa é a imagem mais nítida que tenho de Brasília, mesmo após 33 anos. O futuro.

Se o urbanista, ou o artista, num sonho ideal, imaginou o pelo-sinal, vaticinou e acertou: aqui se cruzam os caminhos.

Aqui se cruzam as mãos, entrelaçam-se os dedos e os destinos. Brasília é arte, beleza e arquitetura. Mais que isso: Brasília é fé! Mãos que oram, esculpem e afagam. Mãos que purificam, se lavam e renovam.

Pés vermelhos. O interminável barro vermelho. O interminável céu vermelho do crepúsculo no Planalto. O inigualável céu-mar de Brasília!

” Céu de Brasília, traço do arquiteto,

gosto tanto dela assim…”

E ainda reclamam: Brasília não tem esquinas. Quanta heresia! É claro que não tem esquinas! Como bem disse o Garcia, ” Brasília é curva, não pode ter esquina em curva”. Simplesmente brilhante. A obsessão de Niemeyer eram e ainda são as curvas. Como curvo é o universo! O impossível é nada.

E pior: Brasília não tem vida! Quanta injustiça. Basta dar uma passada em qualquer superquadra durante o dia, que se verá a vida pulsando em seu estado mais puro. Crianças correndo embaixo dos blocos, ou brincando nos parquinhos. Jovens jogando bola, ou namorando. Turmas e mais turmas reunidas desde sempre, para desespero dos moradores dos andares baixos.

Os caminhos são muitos, e desimpedidos. O urbanista desafiou a lógica e subverteu a razão. Os caminhos passam por dentro dos prédios. Os míticos pilotis de Brasília. Genial. Soberbo.

“As ruas tem um cheiro de gasolina e óleo diesel,

por toda a plataforma, você não vê a torre…”

Sim, essa é minha Brasília. A cidade dos sonhos. A cidade do futuro. A cidade dos Jetsons.

O menino ainda sonha, e em seus sonhos ainda vê os carros que voam. Ainda vê poesia e modernidade. Ainda vê as rotas fotos dos surrados livros. Ainda vê a esperança.

O menino agradece e reverencia sua amada cidade. Cidade que viu nascer, com o barro soprado em suas narinas. Barro que jamais desgruda das unhas, dos pés e da alma. Terra viva. Terra amada.

O menino te amou antes de te ver. Amor à nenhuma vista. Amor de sonhos. Amor do menino à imaginária musa.

Musa dos meus sonhos. Definitivo sonho feliz de cidade.

Tão perto do meu coração.

A cidade distante.

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“E João não conseguiu o que queria

quando veio pra Brasília com o Diabo ter,

ele queria era falar pro Presidente,

pra ajudar toda essa gente

que só faz sofrer.”

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Manaós, Tomate e Guaraná…

got to be there...
got to be there…

Hi negada,

Finalmente as lamparinas do meu juízo parecem ter se acendido e consegui lembrar uma data: era janeiro de 1979. Meu pai decidiu levar-nos, a mim e a meu irmão, para passar um verão na aprazível capital do Amazonas, e da Amazônia (os paraenses vão me matar), se é que existe outra estação por aquelas bandas, cuja temperatura, ou como os neometeorologistas de plantão adoram dizer, sensação térmica, beira os 50 graus à madrugada solta.

Em uma agradável (porém quentíssima) noite de sábado, fomos informados pela primaiada toda, cerca de 40 e tantos jovens, adolescentes (ainda não havia os tweens) e afins, de que iríamos à discoteca (naquele tempo era discoteca e não “club”) da onda, cujo nome era “Starship”. Eu e o mano ficamos, pra dizer um termo atual, “sem noção”, ou, no dizer daqueles dias, chocados. Seria nossa primeira saída pruma “Disco” noturna, já que até então nos restringíramos às inocentes matinês. Obviamente seríamos monitorados permanentemente pela pessoa mais velha do grupo, nosso primo Leôncio, que do alto de seus 15 anos assinou o termo de compromisso em 3 vias, e foi formalmente nomeado guardião do grupo.

Pois bem, desnecessário dizer que ao chegar ao destino, a cultuada casa noturna, por sinal, um lugar “chocante” (porém quentíssimo, a despeito do ar condicionado a menos 10), o Léo decretou o “Laissez – Faire” geral: cada um por si e Deus por todos. Devidamente abastecidos por algumas garrafas de guaraná “Tuchaua”, o do sabor incomparável, fomos para o ringue. Literalmente. A pista de dança tinha o formato e os adereços utilizados nas contendas da “nobre arte”, como córneres, cordas e o indefectível gongo. Nada mais propício, pois desde que o mundo é mundo, trava-se a eterna batalha por um belo par numa pista de dança.

O som era simplesmente incomparável, pois estávamos no coração da zona franca e certamente era o que havia de melhor no Brasil, quiçá no mundo, em termos de aparelhagem de som. Sem falar na iluminação, que provavelmente só chegou ao sudeste uns dois anos depois. A seleção musical estava dentro do script, com todos dançando as “babas” (sucessos) da época e suas respectivas coreografias. Até que aconteceu:

Se Paulinho um dia disse não poder definir “aquele azul”, este humilde blogueiro não pode, mesmo com a mais avançada das mais avançadas das tecnologias, definir aquele som. Talvez fosse a batida primeira da Estação Rosa – Esmeralda; quem sabe o grito primal oriundo da lama e do caos; o eterno tic tac do tempo a martelar menos um segundo pra nada; era um som visível, ou uma luz audível, isso, isso, ou aquilo.

Era o início.

Eu e o mano corremos pro discotecário (ainda não havia DJ) pra saber afinal whadafoque…

O cara fez aquela cara “blasé” de quem tem o ás na manga, mas não pode demonstrar emoção senão perde a mão, e liminarmente esnobou, empunhando a capa do recém-lançado exemplar importado do LP de estreia daquele crioulinho que cantava no Jackson Five: um certo Michael.

A música tornou-se jingle de abertura do Video Show, e ficou conhecida pelo refrão literal “que bom, tô no posto, tomate e guaraná”… o crioulinho se tornou o maior astro da história, superando os Beatles e os Rolling Stones, e o resto todo mundo já sabe.

O que realmente me incomoda, é que, em algum momento, todos nós o odiamos.  Sua única condenação foi decretada pela mídia, mas mesmo assim nos assustamos com todas as suas esquisitices. Todas aquelas noites de domingo em que aguardávamos ansiosos pelo lançamento de seus clipes no último bloco do Fantástico, se foram. Todas aquelas tardes que passamos tentando aprender suas coreografias, miseravelmente se foram.

E ele viveu pra trazer alegria, dança e música a todos. E só isso. E nós o tiramos de nossas vidas. E ele foi brilhar em outros palcos. Ele pode.

E era o fim.