Bibi

Bibi
Minha pequena
Marina morena,
Pipoca, biboca, nariz de taboca.
Marina Bibi.

Queria te dar o céu,
O mar, que já é seu.
Te dar tudo que é meu,
Tudo que nunca tive, tudo que nunca vi.

A lua, as estrelas e um avião.
Voar contigo para o Marrocos,
Berlim, Florença ou Cazaquistão.

Dançar na chuva,
Comer brigadeiro, até de manhã.
Abraçar um estranho, subir a favela,
Ver o sol se pôr, em Itapuã.

Te quero feliz,
Vivendo, vibrando e cantando.
Tua voz que nos acalma e encanta.
E nos faz tão bem.

Como teu sorriso e teu olhar.

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Síndrome de Estocolmo 2.0

Estocolmo

De acordo com a Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Estocolmo) “Síndrome de Estocolmo (Stockholmssyndromet em sueco) é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor. A síndrome de Estocolmo parte de uma necessidade, inicialmente inconsciente.”

Pois descobri que sou portador, desde que deixei de ser petista, há pouco tempo, de uma variante da tal síndrome.

A Síndrome de Estocolmo 2.0 é um estado psicológico em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de Cleptocracia, corrupção endêmica e desrespeito total com a coisa pública, passa a ter um desejo avassalador de viver em Estocolmo. Explico:

Estocolmo é a capital de um pequeno reino nórdico, cujo parlamento é considerado o mais eficiente e barato do mundo. Ostenta também um dos mais baixos níveis de desigualdade de renda do mundo, além de ter se classificado em primeiro lugar no Índice de Democracia, promovido pela ONU.

Mas não vou ater-me à decantada eficiência do Parlamento Sueco. Quem quiser ter uma ideia de como a banda toca por lá, leia o livro de Claudia Wallin, “Um País Sem Excelências e Mordomias” (Geração Editorial).

Resumidamente, os políticos suecos são baratos e eficientes porque a sociedade sueca, que tem os mais altos índices de escolaridade do planeta, tratou de ir às ruas, ainda nos anos 30, exigir punição severa aos maus políticos.

As leis que coíbem as práticas espúrias na administração pública, tão comuns em Pindorama, além de serem mais severas, lá, tem a mais eficiente força fiscalizadora do Universo: o povo.

Lá não tem essa palhaçada de foro privilegiado. Lá, os membros do Judiciário não tem vitaliciedade.

Todos são iguais perante a lei.

Esta semana o jornal “O Globo” publicou um excelente artigo da jornalista Tania Fusco: http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/02/pequena-historia-do-combate-corrupcao-no-brasil-listageral.html

A jornalista parte de premissas verdadeiras, a saber:

“sempre da M quando a campanha política não acaba na eleição e é o “combate a corrupção” que leva o povo para rua e derruba presidentes.”

Mas acaba em conclusões falsas, ou inexistentes.

Se o Getúlio se matou, se o Jânio renunciou, se o Jango correu do pau, se o Collor não aguentou, problema deles. Não fizeram a menor falta, e o país só ganhou com as mudanças! E olha que não havia provas consistentes contra nenhum deles.

Um eventual pedido de impeachment da atual mandatária está subsidiado por um oceano de provas! A mulher, seu antecessor e o partido deles estão envolvidos até a raiz dos cabelos.

Quando compartilhei o artigo no meu facebook, alguns amigos entenderam que não vale a pena ir às ruas pedir o impeachment, vez que não há nada melhor pra por no lugar, ou que não adianta lutar, pois o Brasil é assim mesmo e que sempre seremos governados por corruptos, independente da legenda ou ideologia.

Desculpem, mas não concordo.

Ok, vamos impichar a Dilma e assume o Temer. Catastrófico, concordo. Mas a solução é simples: impeachment no rabo dos dois! O mordomo de filme de vampiro tá tão atolado quanto! E aí, novas eleições.

Precisamos de exemplos!

Vamos por na cadeia todos os belezinhas, como ocorre em Estocolmo, que a coisa muda de figura.

Enquanto assistirmos inertes aos desmandos e roubalheiras, a coisa só vai piorar.

Nós estamos pagando a gasolina mais cara do mundo pra salvar a Petrobrás, que foi quebrada pelo PT! O trabalhador que ganha mais de 2 salários mínimos por mês tem que pagar imposto de renda. Em 97, só pagava quem ganhava mais de 9 salários mensais.

Não podemos tolerar, ainda, um governo a meu ver ilegítimo, que foi eleito com graves violações às leis eleitorais, (convenientemente ignoradas pelo Presidente do TSE, ex-advogado do PT), e sem qualquer possibilidade de auditoria nas urnas, vez que não há como auditá-las.

Um governo que estraçalhou a economia do país com o fito de se manter no poder à custa de descontrole das contas públicas, com farta distribuição de cargos (100.000!!!) e ministérios (40!!!), compra de apoio político no Congresso, aparelhamento do Estado e de instituições de controle, tais como PGR, CGU e Polícia Federal, além do próprio STF.

Sem falar na mais vil das práticas espúrias: o assistencialismo. Iludir milhões de desvalidos em troca de bolsas as mais variadas, sem prover-lhes o que há de mais importante: serviços públicos de qualidade. Saneamento, moradia, segurança, educação e saúde.

Vamos dar um basta! Vamos às ruas! Mudemos as leis! Cadeia pros maus políticos!

Chega de pagar impostos escandinavos e receber serviços africanos.

Chega de ser Escandináfrica!

Até tu, Veríssimo?

Quinta-feira é dia da coluna do Veríssimo, o Luís Fernando. Sou fã de carteirinha e leitor assíduo de tudo que o maior cronista vivo do país escreve. Mas desta vez ele vacilou.

A crônica desta semana (“http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,ma-fase-imp-,1601970”) a qual gosto de ler na página do Estadão por conta da diagramação limpa, transcorria leve e gostosa, como de praxe.

Versava divertidamente sobre rebaixamentos no futebol, em particular ao recente malogro bisado pelo faísca, perdão, Botafogo.
O problema foi a segunda parte.

O quarto parágrafo, intitulado “O começo”, inicia-se com uma premissa falsa, que aqui indico:
“Leitura recomendada para os nostálgicos da ditadura.”

Sei que tenho pouquíssimas ou nenhuma chance de que um dia estas humildes linhas sejam lidas pelos iluminados olhos do mestre, mas vai que…
Senhor Luis Fernando, tal assertiva não corresponde à realidade.

Talvez induzido por sua conhecida simpatia ao atual regime, que foi definido por um membro da Suprema Corte desse país, como “cleptocracia”, o nobre escriba pisou na bola.
Não há nostálgicos da ditadura, até porque há uma nova (dissimulada em democracia) instalada.
Há nostálgicos dos militares. E eu não sou um deles, devo esclarecer.

Continuando.
Um pouco mais à frente, o cronista discorre sobre a obra de um tal Pedro Henrique Pedreira Campos, a qual não li e por isso não posso tecer comentários.
De acordo com LFV, o livro trata da participação das empreiteiras no golpe de 64 e a sua relação com o governo militar.

Afirma que “os casos de corrupção … eram acobertados porque não existia fiscalização, a imprensa era censurada e qualquer crítica era considerada contestação ao regime.”
E pra piorar:

“na era dos militares, a apropriação do Estado pelas empreiteiras era até maior do que o que está sendo revelado hoje por instituições democráticas como o Ministério Público e a Polícia Federal.”

Ôpa! Peralá!

Santa Clara na causa: não existia fiscalização? Talvez, pois não havia os órgãos fiscalizadores de hoje. Mas do que adianta fiscalizar e os fantoches “entuchados” nos Tribunais e Órgãos de Controle engavetarem as investigações, como ocorre nowadays?

A imprensa era censurada? Realmente era e considero isso uma grave violência. A mesma que os atuais cleptocratas tentam sorrateiramente perpetrar, por meio de uma nova lei de controle da mídia. Além disso, há casos como o da jornalista Rachel Sheherazade (essa eu googuei)cuja emissora teve o patrocínio de um banco federal cancelado, após as críticas que teceu à atual mandatária, consideradas contestação ao Regime. Confere, produção?

Apropriação do Estado pelas empreiteiras era maior do que hoje? Oi? Como assim LFV? Cancelaram a sua Internet? Parou de ler e ver jornais, como 99% dos petistas que eu conheço?

O Sr. Paulinho, protegido do ex e da atual mandatária, foi muito claro na acareação de que participou na CPI da Petrobrás: TODOS os órgãos, empresas públicas e autarquias estão envolvidos em esquemas de favorecimento a empreiteiras. E que envolvem partidos e parlamentares.

Instituições democráticas como o MP e a PF? Quanto ao MP nada posso falar, mas como servidor da PF, sou muito claro em afirmar que isso só pode ser piada.
Melhor não entrar em detalhes.

Mas sopesando a genialidade artística e a obtusidade política, o grande mestre da literatura tem crédito de sobra.

Continuarei seu assíduo leitor, apenas peço que respeite a minha inteligência!

Carta a um eleitor 10 anos após a reeleição da Dilma

Caro amigo eleitor,

Inicialmente peço desculpas pelas mal traçadas linhas, mas é que o computador aqui de casa está um pouco defasado, sabe, desde que fomos submetidos ao embargo econômico imposto pela ONU, por conta da suposta violação aos direitos humanos e à liberdade praticados pelo Governo Lulinha (o filho) que sucedeu a Dilma em 2019 e decidiu unir o Brasil à Venezuela, batizando a nova nação de República Bolivariana de Brazuela.

Sei que você não fez por mal, ao votar na Dilma, pois o plano de inclusão pelo consumo, e não pela educação, realmente parecia ser uma boa ação. Até eu acreditei, no início. O bolsa-misé(…) desculpe, família, que hoje é pago a 75% da população Brazuelana e do qual sou beneficiário há 7 anos, realmente tirou muita gente da miséria. Enquanto era pago pra 4 milhões de famílias, tinha toda a cara de projeto social, mas quando chegou em 40 milhões, aí ficou claro que era parte do GPP – Grande Projeto de Poder. Alguns subversivos dizem que era assistencialismo, voto de cabresto, mas podemos falar disso mais tarde, né?

Não muito tarde, pois o racionamento de energia não permite usar eletricidade após as 19h, e você sabe, bateria de computador velho vicia mais que crack. Por falar nisso, a epidemia de crack, que começou com o lançamento do bolsa-crack, para amparar os usuários de droga que não tinham condições de pagar as pedras, está fora de controle. Pelo menos o PT conseguiu manter o apoio necessário às reformas no Congresso, já que se aliou ao PPCC, ou Partido do PCC, que garante a maioria nas duas casas em troca da vista grossa das autoridades à venda de drogas, sequestros e assaltos a bancos. Pragmatismo é tudo, não é mesmo?

Não posso reclamar do puxadinho em que moro, numa expansão da Vila Fidel, periferia de Brasíli(…) desculpe, Lulópolis, novo nome da Capital Federal, que pude adquirir no Programa Meu Puxado, Minha Vida, a juros módicos de 83% ao ano. Tem gente morando muito pior – nas ruas – desde que a propriedade privada foi abolida em Brazuela e o MST se apossou de metade dos imóveis de Bras(…) Lulópolis. A outra metade foi com muita justiça repartida entre os 39 partidos da base aliada. Os petistas receberam as humildes casas dos Lagos Sul e Norte. Muito justo, pois tinham que ser recompensados pelas perseguições sofridas na ditadura militar e depois pelos abusos psicológicos cometidos pelos coxinhas que insistiam em chamá-los de esquerda caviar. Absurdo.

Confesso que estou um pouco chateado com o fato de estar desempregado há 8 anos, assim como 185 milhões de Brazuelanos, e não poder dar uma alimentação adequada às minhas filhas, mas sei que o sacrifício de todos é para o bem da coletividade. Também não posso reclamar da educação oferecida pela Rede Pública Chavista de ensino, que forma companheiros alinhados com a causa. Minha pequenininha adora as aulas de Conscientização Marxista Coletiva e de Marcha Norte-Coreana no adestramento físico. Ela também adora os programas infantis que passam na única emissora, a TV Che Guevara. Seu desenho favorito é “Procurando Evo”, sobre um peixinho Boliviano que quer salvar o mundo dos porcos imperialistas.

A mais velha, como toda adolescente, adora a Internet, que apesar de voltar a ser discada desde a Grande Reestatização, garante o acesso, ainda que monitorado, à rede mundial de computadores. Todos podem acessar o Portal Oficial de Informações, estatal criada após a decretação da Lei Geral de Controle da Mídia. Tudo de acordo com o moderno modelo iraniano de acesso à informação.

Hoje fiquei um pouco triste com a morte do Presidente do STF, Ministro Zé Dirceu, vitimado em acidente aéreo no seu aviãozinho particular, um Gulfstream 6. Há rumores de que foi um atentado, mas não é bom ficar comentando pois somos monitorados sistematicamente pelos Soviet(…) desculpe, Conselhos Populares criados pela Dilma. O egrégio ministro conduziu com absoluta imparcialidade aquela Casa de Justiça, nos 8 anos em que ocupou o cargo máximo da Justiça Brazuelana. Já se especula que o Lulinha deve nomear outro advogado de algum partido da base aliada, assim como fez com os outros dez ministros. Estou muito sentido pela perda deste grande brasileiro, que tanto contribuiu para a criação da Nova Constituição Brazuelana e seus 7.732 artigos.

Mas nem tudo é tristeza! Ontem fui sorteado para uma consulta com um médico boliviano no Hospital Geral Agnelo Queiroz! As terríveis dores de cabeça de que venho padecendo já tem data para terminar, assim espero: daqui a apenas 18 meses serei consultado! Isso não é uma maravilha? Melhor que o sorteio da morte, que foi instituído nas emergências de todos os hospitais de Brazuela, como medida de contenção de gastos. Funciona assim: a pessoa que tem alguma emergência recebe uma senha na entrada do hospital. Se não for sorteada entre os 15% a ser atendidos naquele mês, pode voltar pra casa e tentar o sorteio da consulta. Não é tão ruim, mas é melhor não se acidentar.

Agora preciso descansar, pois amanhã todos temos de acordar cedo, para participar do desfile cívico em comemoração aos 10 anos da reeleição da Dilma, que oficializou o Grande Projeto de Poder. Não podemos ficar de fora desta grande festa cívica, até porque se não formos, não receberemos nossa cota mensal de ração, composta de 2 quilos de feijão, farinha e inhame, produzidos nas Grandes Fazendas Coletivas. E você sabe, caro amigo eleitor, saco vazio não para em pé. (risos)

Antes de me despedir, caro amigo eleitor de 2014, gostaria de pedir um favorzinho. Vota na Dilma, vai. Se você quer ver um país justo, próspero e feliz como o que estou vivendo agora, em 2024, vota na Dilma. Seus filhos irão te agradecer pro resto da vida.

República Bolivariana de Brazuela

República Bolivariana de Brazuela

O Menino que Pintava Meios-fios.

O ano era 1978, o bairro era Cruzeiro, a cidade, Brasília.

O primeiro envolvimento, de fato, que tive com uma Copa do Mundo, foi ali, na inocência dos 11 anos, pintando meios-fios de verde e amarelo, recortando bandeirinhas e colecionando figurinhas da Copa, que àquela época traziam um atrativo irresistível em cada pacote: um chiclete “Ping-Pong”.

O estacionamento do bloco (como são chamados os edifícios residenciais, em Brasília) virava uma imensa quadra de Escola de Samba que, apesar de não contar com telões (inexistentes à época), dispunha de sistema de som potente, emprestado pelo Adílson, um morador festeiro da Quadra, o qual retransmitia a narração do jogo pelo rádio – Sofrimento atroz!

Antes, durante o intervalo e após o jogo, caso confirmada a vitória, cantávamos e dançávamos o grande hit da Copa de 78: “Pombo Correio” de Moraes Moreira.

Cantamos, dançamos e ao final choramos com a pataquada promovida pelo Peru, que claramente entregou um jogo pra Argentina, desclassificando o Brasil da Final. Surgia, então, o abjeto termo “Campeão Moral”.

Outras Copas vieram, outras vezes nos mobilizamos, nos envolvemos, sorrimos e choramos. Sempre imbuídos de um sentimento patriótico pontual, que estranhamente só nos ocorria de 4 em 4 anos. “A pátria de chuteiras”, outro termo abjeto.

Confesso que a princípio me empolguei pela Copa no Brasil. Não pelo aspecto esportivo, vez que sou ferrenho praticante e amante dos desportos, quaisquer que sejam. Fundamentais para o bem social e para a educação dos povos.

Estava empolgado pela possibilidade que vislumbrava na melhoria dos serviços públicos e no chamado “legado da Copa”: mobilidade urbana, hospitais públicos e ensino de qualidade.

Até que a ficha caiu.

Em 2012, ainda na França, onde cumpria missão profissional, ao ser perguntado se o Brasil estaria pronto a tempo para o Mundial, respondi sem hesitação: “Os estádios estarão prontos, apesar de superfaturados. E só.”

Meu vaticínio mostrou-se acertado.

A essa altura, o aspecto esportivo é irrelevante, pois no final todos iremos torcer, qual o menino que picava papel e pintava meios-fios. O Zuenir Ventura conta uma passagem interessante, em artigo recente, sobre a utilização política da copa de 70 pelo Governo militar, que era repudiada pela esquerda, a qual recomendava torcer contra a seleção canarinho:

“Um preso político contava que ele e seus companheiros de cela torciam contra até começar o jogo. “Aí ninguém mais resistia. A cada lance que o radinho de pilha narrava, todos passavam a gritar Brasil!”

E todos gritaremos “Gol!” e soltaremos fogos, abafando o rugido rouco dos fuzis da Vila Cruzeiro, do Planeta dos Macacos, da Fazendinha ou de Itaquera.

E sei também que no dia seguinte nos atolaremos nos engarrafamentos caóticos das nossas grandes cidades.

Nossos serviçais procurarão os leitos pútridos de corredores infectos e abarrotados de nossos hospitais, com seus filhos em prantos, ou mudos, no colo.

Nossas crianças (deles) ocuparão os bancos rotos de escolas sucateadas, com professores humilhantemente mal pagos, onde grassam a violência e as drogas.

Nos acastelaremos em nossos condomínios, com medo das “saidinhas de banco”, “sapatinhos” e balas perdidas da carnificina em que se transformaram nossas ruas.

Não é essa a Copa que eu queria, superfaturada e sem legado.

Não é esse o futuro mendigo, de um país mendigo, que quero para minhas filhas.

Quero mudanças.

De uma vez por todas: Pra frente, Brasil!

O Silêncio que Antecede o Estrondo

Sepp Herberger

“A bola é redonda, o jogo dura 90 minutos, tudo o mais é pura teoria”
Sepp Herberger – Treinador da Seleção Alemã campeã mundial em 1954.

Lembro viva e dolorosamente da picada daquela vespa, ou, no dizer do meu pai – “caba” – como é conhecido o pequeno e irritante inseto, nas lonjuras da Amazônia.

Era treino do Botafogo, na sede de General Severiano.

Meu pai, botafoguense doente (desculpem o pleonasmo), queria por tudo doutrinar os dois filhos na tradição que herdara de seu pai, compartilhada ainda, por quase todos os seus 11 irmãos.

Era véspera de jogo importantíssimo, contra o arquirrival rubro-negro, cujo nome era terminantemente proibido de ser pronunciado, tanto em minha casa, quanto naquela praça esportiva.

Na ingenuidade dos meus 7 anos, ao ouvir um zumbido forte e sentir que algo caminhava por minha face direita, não titubeei em tentar abanar o inconveniente artrópode. Erro fatal.

A sensação foi de choque elétrico de muitos volts. O choro correu solto. O berreiro junto.
Talvez fosse um prenúncio do que se avizinhava.

No domingo, já no Mário Filho, repleto, chamou-me a atenção o colorido indizível do lado contrário. A cantoria incessante, o batucar perene, o foguetório insandecido, o vermelho vivo que fazia contraponto ao puríssimo negro, nas enormes bandeiras da torcida rival. Algo estava errado.

A Nação

Em campo, um loirinho pequeno e magro, ao mesmo tempo regia e solava. Virtuoso. O silêncio alvi-negro era comovente. Tímidas vozes tentavam, em vão, chamar aos brios os acuados defensores das listras verticais, cuja estrela solitária, naquela tarde-noite de domingo, aos pés do Redentor, recusou-se a brilhar.

Ali tomei a decisão. Protelei ainda por algumas semanas o anúncio oficial, ciente do duro golpe que estava por infligir em meu amado pai. Mas tinha de fazê-lo.

Ao ser informado de que iríamos novamente ao Maracanã, desta feita assistir ao clássico contra o Fluminense, resolvi abrir o jogo:

– Pai, não quero ir. Sou Flamengo.

Meu velho, um tanto perplexo pela revelação, tentou argumentar, ponderar, reverter o quadro. Mas nada adiantou. Minha mãe ainda teve de intervir à ameaça de meu pai de usar métodos pouco ortodoxos de convencimento. Ao final, resignou-se. No fundo sabia: Uma vez Flamengo…

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2013. Flamengo e Atlético Paranaense entram em campo para disputar a final da Copa do Brasil, no mesmo estádio Mário Filho, agora completamente reformado, reestilizado e superfaturado.

A saga do bando que nos envergonhara no Carioca, nos vexaminava no Brasileirão e arrancava, improvável, rumo à glória naquela noite de quarta-feira, na Guanabara, deveria virar adendo da Ilíada ou da Odisséia.

Jaime

Comandada por um técnico boleiro, simples e de fala mansa, que substituiu outro pragmático, propotente e covarde, que abandonara o barco à primeira dificuldade, a equipe da Gávea superara o enorme abismo técnico, a total desconfiança de seus próprios torcedores e o desprezo unânime da crítica especializada.

Berna, Suíça, 4 de julho de 1954. Faltam poucos minutos para a grande final da Copa do Mundo. Alemanha e Hungria se reencontravam, após a humilhante goleada por 8 a 3 imposta aos germanos, pelos húngaros que assombraram o mundo, na primeira fase do certame.

Sepp Herberger, técnico alemão, reúne a equipe antes da batalha final e profere as tres frases que mudariam a história do futebol:

“A bola é redonda, o jogo dura 90 minutos, tudo o mais é pura teoria”

Após um revés de dois gols, ainda no primeiro tempo, a equipe alemã se recupera e vira o placar da “Batalha de Berna”, escrevendo, indelevelmente, seu nome na eternidade.

Seleção Alemã, 1954

– Mas como assim? Flamengo? Urubu, mulambo, favela?

É isso aí, amigo. O flamenguista aprende desde cedo a ser alquimista de emoções. Todas as tentativas de nos ofender e diminuir obtém efeito contrário. O ódio dos rivais, que sabemos ser oriundo do terror que nossas cores impõem, é o que nos alimenta o ego.

O flamenguista tinha tudo pra dar errado, como o brasileiro, fruto da mais estapafúrdia das misturas. O flamenguista é a cara do Brasil.

É o que sobrou do Cassoulet dos senhores de engenho e se transformou na feijoada, feita de partes descartadas, mas que sabe a manjar dos deuses.

feijoada

Não há como explicar. Só sendo. Ser flamenguista é ser, antes de tudo, otimista, um pouco presunçoso, por que não? Ainda que isso nos custe, como na vida, alguns infortúnios pelo caminho.

Ser flamenguista é ser protagonista dos prodígios mais improváveis e, ao mesmo tempo, das tragédias mais absurdas.

E foi isso que Jaime de Oliveira, o tranquilão, pediu a seus jogadores quando assumiu o comando do time, em meio a uma crise que se arrastava por quase dois anos, e que culminou com a saída covarde do tal pragmático.

Qual o brasileiro, ou o flamenguista, tinha tudo pra dar errado.

As carnes nobres já haviam sido distribuídas entre os fidalgos adversários. Restaram-lhe as pelancas, sobras, suor e culhões de 12 ou 13 mulambos pra tentar salvar, com alguma dignidade, a humilhante temporada.

Do alto de sua simplicidade, pediu somente uma coisa aos combalidos comandados:

-Sejam Flamengo.

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2013, 41 do segundo tempo. A equipe curitibana ataca, sem refresco, desde os 15 da segunda etapa, a cidadela guarnecida por Felipe. Não são incursões das mais organizadas, é verdade, mas a Nação, que heroicamente cantou durante os 86 minutos anteriores, dá sinais de apreensão.

Batem-se palmas mais por alívio, a cada tentativa rechaçada, que por incentivo.

O canto já não soa tão potente. Os olhares teimam em buscar os relógios. A voz titubeia na garganta antes de alcançar a superfície. O canto é tenso. Bocas e unhas não se deixam e um segundo não tem fim.

O incansável Paulinho, o Uri Geller, recebe lançamento primoroso de Elias, arranca e dá passe açucarado para Hernane, o Brocador, que ajeita e bate. UUUUUUHHHHHH. Milagre do goleiro.

A bola volta pro Brocador, que chuta a esmo, a bola cai com o Uri Geller, que finge que vai, não vai e acaba “fondo”, pro fundo. Drible humilhante, passe milimétrico pra Elias. Dentro da pequena área, o guerreiro Hoplita rubro-negro bate seco, rasteiro.

O relógio pára. A relatividade de Einstein curva, em golpe único, o tempo, a marquise renovada e a bola. Qual hecatombe nuclear, o cogumelo de luz se retrai e, em um instante infinitesimal, violentamente se expande.

O Big e o Bang. A grande explosão, como a bomba sobre o Japão. (Obrigado, Gil).

Tudo se amalgama em uma massa disforme de corpos, cerveja sem álcool, suor e luz.

E até Spike Lee chorou. Todos choramos. E cantamos, e nos abraçamos.

A meu lado, um menino. Estático e extático. Parece hipnotizado pela cantoria incessante, o batucar perene, o foguetório insandecido, o vermelho vivo que faz contraponto ao puríssimo negro, nas enormes bandeiras da sua torcida. A minha torcida. Minha Nação.

Pensei comigo: como é bom ser flamenguista!

“Com meu manto sagrado, minha bandeira na mão, o Maraca é nosso…”

Começara a festa.

O Poder Revolucionário da Música – 1ª parte

Cité Internationale

O restaurante da firma, agora que mudei de prédio, dista uns 500 metros do escritório, mas só vejo vantagens nisso, pois destarte os (muitos) dias chuvosos aqui em Lyon, acho muito salutar poder caminhar pela bela alameda que separa os dois sítios, seja inverno ou verão.

Na unidade em que trabalho, somos de 15 nacionalidades diferentes e procuro, nessas caminhadas diárias na hora do almoço, conhecer um pouco dos hábitos e costumes desses países. E foi numa dessas caminhadas que fui interpelado sobre uma música brasileira, mundialmente conhecida, que fez um estrondoso sucesso nos final dos anos 80, princípio dos 90. Até hoje faz, no velho mundo.

Sem perder a oportunidade, saquei o celular do bolso e via streaming, pus pra tocar a tal canção. Uma integrante da nossa unidade, Ioana, de origem romena, que caminhava um pouco à frente, em outro grupo, ao reconhecer os acordes veio até nós e, um tanto emocionada, contou o quanto significava para ela e para seu país, aquela canção.

Contou ela, que em sua pré-adolescência, no período que antecedeu a derrocada da sanguinária e infame ditadura

Nicolae Ceausescu

comunista em seu país, capitaneada pelo não menos sanguinário e infame Nicolae Ceaușescu, só se podia ouvir música clássica ou tradicional romena nas rádios estatais, e assistir a programas históricos e documentários na única emissora de TV, também estatal, que mostrava diariamente os “grandes avanços” promovidos pelo regime, de forma a proteger o povo da “decadente cultura capitalista ocidental”.

Com o advento da Perestroika, (reestruturação ou abertura econômica) promovida pela então União Soviética, da qual era dependente econômico, o ditador se viu obrigado a fazer algumas concessões, dentre elas a permissão para transmitir programas televisivos ocidentais, notadamente novelas, que além de manter certo nível de alienação, (àquela altura obrigatória) haja vista o estado de calamidade em que vivia o famélico povo romeno, demonstraria a boa vontade do ditador em promover reformas, ainda que meramente distrativas e inócuas.

E se tem um produto brasileiro com verdadeiro pedigree internacional, é a tal da novela.

Novela Brasileira

Foi nesse cenário político-social, que uma canção brasileira, exaustivamente tocada na novela de maior sucesso da época, tornou-se símbolo da Revolução Romena, iniciada em dezembro de 1989, que culminou com a execução sumária, em praça pública, do temível ditador.

Segundo a Ioana, a canção tornou-se o hino da revolução, pois trazia os quase proibidos, para seu sofrido povo, componentes da alegria e da celebração à vida.

A canção era “Lambada”, mais conhecida, no Brasil, como “Chorando se Foi”, do grupo Kaoma.

Expliquei, então, que apesar do ritmo alegre e envolvente, a letra da música é quase triste, pois fala de choro, recordação, riso e dor. Em suma, o fim de um amor.

Esse é o poder revolucionário da música, pois o importante não é se, ou como a entendemos. O que importa é como a sentimos. Não sei o que significa uma vírgula do Gangnam Style, mas pra mim denota alegria, descontração, celebração… Vai saber.

O choroso fim de um amor, aos ouvidos romenos, foi o início de uma nova vida.

E de uma nova nação.

Kaoma – Lambada